A cultura do underground resiste. Voláteis, suas manifestações não se deixam capturar com facilidade. Talvez por isso, muitas de suas experiências fiquem retidas apenas na memória dos participantes. O movimento punk de Londrina correria esse risco, não fosse o geógrafo Nécio Turra Neto sair a campo para desvendar seus rastros.
Graças a ele, um ong criada com o único objetivo de distribuir sopão em assentamentos urbanos teve agora sua história documentada. A iniciativa, levada a cabo por um casal anarco-punk em 1998, está registrada no livro ''Enterrado Vivo Identidade Punk e Território em Londrina'', de autoria de Nécio e lançado recentemente pela editora Unesp.
O livro, resultado de tese de mestrado defendida na Unesp de Presidente Prudente (SP), rastreia o universo punk da cidade focalizando o cotidiano, as idéias e particularmente os locais frequentados pelos seguidores do movimento. O ponto de vista é de um geógrafo, que dialoga com outras disciplinas (antropologia, história, psicologia, sociologia, filosofia e estudos culturais) para desvendar os códigos de um grupo de jovens em permanente inquietação.
Os capítulos são escritos em forma de cartas. Nécio, formado em Geografia pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), reconstitui a trajetória da ''tribo'' partindo de seu surgimento nos Estados Unidos e na Inglaterra até sua eclosão no Brasil e o posterior desembarque em Londrina em meados da década de 80.
Antes, para contextualizar o punk, dedica um capítulo à história dos movimentos de juventude desde o início do século XX até os anos 70. Ao ambientar o movimento em Londrina, ele faz um levantamento dos locais de circulação dos adeptos pela cidade resgatando os espaços de diversão e de encontro que ao longo dos anos lhes deram visibilidade.
A lista inclui a loja de discos Footloose, o Calçadão, a Adega, o Rock Point, o Recanto do Aperitivo, o La Araucana, o Bar Brasil, o Gran Mausoléo, o Nomad, o Chapadão, a escadaria do Zerão, um barracão abandonado na Rua Quintino Bocaiúva, as sedes do DCE e da ULES, o Restaurante Universitário (R.U), a Praça da Bandeira, o Clube da Esquina, a Banca do Beto, o Vila Café, o Colossinho, o Moringão e o Potiguá.
''O movimento punk em Londrina nunca teve um território fixo, mas vários temporários'' escreve o autor, que conviveu quase diariamente com os personagens de seu livro durante sete meses de 2000. O relato em tom pessoal flagra vários episódios vividos ou narrados por seus interlocutores incluindo protestos de rua ao lado do Movimento Sem-Terra (MST), manifestação em parceria com o Movimento Negro e brigas com facções ''rivais'', como os carecas (skinheads) e os psychobillies.
Ele conta que para conquistar a confiança dos punks, teve que passar por experiências inusitadas: ''Estávamos no Zerão, num domingo à tarde, e decidimos comer alguma coisa, mas ninguém tinha dinheiro, inclusive eu. Então fui convidado a participar do mangueio (expressão usada para o ato de sair por aí pedindo coisas para pessoas, como cigarro, cerveja ou comida no restaurante). Passamos em algumas pizzarias para pedir as sobras e não obtivemos sucesso. Então foi decidido, pelas pessoas do grupo, que iriam vasculhar os lixos de barraquinhas de lanches na Rua Quintino Bocaiúva. Tive de comer restos de lanches achados no lixo. Ao fazer isso, creio que o grupo percebeu que eu estava disposto realmente a participar de tudo, sem pudores, a conviver com eles em todos os momentos''.
Ao final da pesquisa e do livro Nécio constata uma dispersão no grupo, apontando causas como a mudança de cidade de vários personagens, divisões internas e ocupação de seus antigos ''territórios'' por facções rivais. O volume traz ainda um capítulo com reproduções de panfletos, fanzines, poesias, letras de música e matérias publicadas na imprensa sobre o movimento.

Serviço:
- Livro ''Enterrado Vivo Identidade Punk e Território em Londrina''. Autor: Nécio Turra Neto. Páginas: 290. Editora: Unesp (www.editoraunesp.com.br Tel. 11/3242-7171).
Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna ''Leitura'' de Marcos Losnak.

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