A controvérsia será inevitável. Uns irão reclamar a ausência ''imperdoável'' de uma ou outra música preferida. Outros criticarão a ''intrusão'' desta ou daquela composição. Como toda compilação do gênero, o songbook ''As 101 Melhores Canções do Século XX'' não escapará da polêmica.
O material está chegando às livrarias em dois volumes, acompanhado de dois CDs com gravações de algumas faixas escolhidas. Foi um dos últimos projetos concebidos pelo produtor Almir Chediak, assassinado em maio de 2003. Traz melodia, letra e harmonia (acordes cifrados) para violão, guitarra, órgão, piano e outros instrumentos.
A seleção abrange clássicos da música popular brasileira de todas as épocas e gêneros como ''As Rosas Não Falam'' (Cartola), ''Ai, que Saudade da Amélia'' (Ataulfo Alves e Mário Lago), ''Detalhes'' (Roberto e Erasmo Carlos), ''Trem das Onze'' (Adoniran Barbosa), ''Gita'' (Raul Seixas e Paulo Coelho), ''Meu Erro'' (Herbet Vianna), ''Como Uma Onda'' (Lulu Santos e Nelson Motta) e ''Comida'' (Titãs).
Ao elaborar a seleção, Chediak consultou artistas e críticos particularmente Sérgio Cabral não se restringindo ao seu próprio gosto. A edição ficou a cargo de seu irmão, Jesus Chediak, que convocou o jornalista João Máximo, o músico Antonio Adolfo e o historiador Ricardo Cravo Albim para escrever os textos de apresentação da obra.
''Cada vez mais me convenço de que a nossa música popular não é apenas a melhor face das manifestações artísticas do Brasil. Ela é estou seguro o mais amplo, mais qualificado e mais generoso conjunto cultural de que dispomos'' assinala Albim. Sérgio Cabral participa assinando pequenos textos com informações básicas sobre cada uma das canções elencadas.
João Máximo, por sua vez, exalta a coragem de Chediak ao propor a antologia. Observa o caráter discutível de todo aquilo que é feito em torno do adjetivo ''melhor'', salientando que ''é quase impossível confrontarmos os valores tão distintos que encontramos, por exemplo, na simplicidade de 'A Banda' (Chico Buarque) e no arrebatamento de 'Aquarela do Brasil' (Ary Barroso); na singeleza de 'Carinhoso' (Pixinguinha e João de Barro) e na agressividade de 'Carcará' (João do Vale e José Cândido); na sensualidade de 'Da Cor do Pecado' (Bororó) e na malandrice tão carioca de 'Conversa de Botequim' (Vadico e Noel Rosa); na desolação sertaneja de 'Asa Branca' (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) e no encanto urbano de 'Garota de Ipanema' (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)''.
Os dois CDs, com 16 músicas cada, traz registros surpreendentes garimpados no acervo da Lumiar o selo de Chediak, responsável pela gravação dos songbooks. Inclui Cássia Eller cantando ''Garota de Ipanema'', Tim Maia interpretando ''Aquarela do Brasil'', Djavan colocando voz em ''Carinhoso''; e Renato Russo numa versão de ''Gente Humilde'' acompanhado ao violão por Hélio Delmiro.
O songbook é o vigésimo título do gênero lançando pela Lumiar. Entre os volumes já publicados constam os de Caetano Veloso, Djavan, Noel Rosa, Chico Buarque, Cazuza e João Bosco. Antonio Adolfo nota, em seu texto, que os projetos bancados por Chediak elevaram a qualidade da música escrita no País oxigenando um mercado poluído por ''revistinhas de bancas'' e ''partituras escritas e editadas por gente que deturpava a obra dos compositores''.
Em seguida, escreve: ''Conheci músico que gravou disco de MPB a partir do que leu no songbook, mesmo sem conhecer as músicas. Foi só pela partitura, e ficou maravilhoso. O grande saxofonista de jazz David Liebman é um exemplo que, a partir de um dos volumes do songbook de Tom Jobim, gravou um belo CD, The Unknown Jobim''.
Os próximos lançamentos da gravadora serão dedicados a Ivan Lins, Moraes Moreira e Edu Lobo (numa segunda edição ampliada). Há ainda um projeto de um título voltado para letristas como Abel Silva, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro.
Serviço:

- Songbook ''As 101 Melhores Canções do Século XX'', com seleção de Almir Chediak, incluindo dois livros e dois CDs. Lançamento: Lumiar (tel. 21/2512-9817). Preço de cada livro: R$ 44,00. Preço de cada CD: R$ 22,90.
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