NAS PRATELEIRAS - Literatura hoje
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de junho de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Entraram todos, ou quase todos. Os veteranos, os novos e os novíssimos talentos contemporâneos da escrita foram reunidos no livro ''Literatura Brasileira Hoje''.
O volume, de autoria do crítico Manuel da Costa Pinto, sai da gráfica pela editora Publifolha com a proposta de orientar o leitor no congestionado universo de nomes e obras nem sempre examinados com discernimento pelas resenhas de jornais e revistas.
O mapeamento reúne pequenos comentários individualizados sobre as obras de 30 poetas e 30 prosadores, números confessadamente arbitrários. A tarefa, temerária, desafia o mito de que é necessário um distanciamento histórico para exercer a avaliação do presente sob o risco de precipitar-se em análises equivocadas.
Costa Pinto, ex-editor da revista Cult, topou a parada. ''Crítica literária também é risco mesmo quando não expressa uma opinião pessoal, mas procura entender a importância que autores e obras adquiriram dentro de nosso sistema literário'' anota ele na introdução. Seu vasto panorama elenca desde nomes consagrados como Lygia Fagundes Telles, Luis Fernando Veríssimo, Rubem Fonseca, Haroldo de Campos (1929-2003) e Ferreira Gullar a jovens surgidos na década de 90 como André Sant'Anna, Nelson de Oliveira, Marçal Aquino, Claudia Roquette-Pinto e Carlito Azevedo.
Do velho de guerra Manoel de Barros (88 anos) ao caçula Tarso de Melo (28 anos), todos têm suas obras abordadas em textos de quatro ou cinco parágrafos, definidos pelo autor como ''leituras que procuram identificar singularidades''. Aqui, Costa Pinto multiplica as referências ao inserir aproximações e afinidades entre os autores selecionados e outros tantos que ficaram de fora.
Ele explica que cada um deles constituiria uma espécie de campo de força, que apontaria para tendências ou dicções presentes em outros colegas de metiê. É assim que ao comentar os romances históricos da escritora cearense Ana Miranda, cita a gaúcha Letícia Wierzchowski (autora de ''A Casa das Sete Mulheres'') e o paulista Isaias Pessotti (''Aqueles Cães Malditos de Arquelau'') como tributários da mesma vertente literária.
É o que ocorre também quando observa as similaridades entre a prosa do paulistano Marcelo Mirisola com os escritores da chamada ''geração 90'', da qual fariam parte nomes como Fernando Bonassi, Marcelino Freire e Ronaldo Bressane. No caso, ele partilharia com os citados ''a escrita fragmentária e a temática da sordidez moral e da degradação urbana, com imagens escatológicas que se acumulam como o lixo das ruas''.
O autor de ''O Azul do Filho Morto'' evocaria ainda outras conexões. ''A euforia negativa de Mirisola, sua celebração do naufrágio libertador, deve muito à prosa anárquica de outsiders norte-americanos, como Bukowski e John Fante mas também se aproxima do cenário alucinado (e igualmente autobiográfico) de autores como Reinaldo Moraes e Mário Bortolotto'' acrescenta.
Costa Pinto detecta uma percepção geral do isolamento e da vulnerablidade do sujeito moderno na ficção brasileira contemporânea. ''Essa percepção pode tomar a forma dos fragmentos de Dalton Trevisan, das narrativas 'instáveis' de Bernardo Carvalho e Chico Buarque ou dos nomadismos de João Gilberto Noll. Em todos eles, permanece como experiência de fundo o desenraizamento proporcionado pela cidade'' salienta.
Já ao debruçar-se sobre a produção dos poetas reunidos no volume, ele aponta como traços predominantes o rigor construtivo, a precisão léxica e a pesquisa de novos patamares expressivos propiciados pela linguagem. Vicejaria uma visão da poesia como ''artefato'' no qual os outros componentes (subjetivos, sociais, religiosos etc.) aparecem subordinados ao trabalho da forma.
Seu mapeamento do verso contemporâneo brasileiro termina com um texto sobre Tarso de Melo, jovem poeta de Santo André (SP), a quem atribui o talento de melhor sintetizar a linha de continuidade da tradição poética assimilando tanto as formulações dos modernistas e vanguardistas da primeira metade do século passado quanto a reapropriação crítica levada a cabo por seus herdeiros.
Didático e elucidativo, o livro tem pouco mais de 160 páginas. Chega às prateleiras como parte da série ''Folha Explica'', da editora Publifolha. Manuel da Costa Pinto é mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Escreveu o volume de ensaio ''Albert Camus Um Elogio do Ensaio'', além de ter organizado e traduzido a antologia ''A Inteligência e o Cadafalso e Outros Ensaios'' de Camus. Entre 1997 e 2003, foi editor da revista Cult.
Serviço:
- Livro ''Literatura Brasileira Hoje''. Autor: Manuel da Costa Pinto. Editora: Publifolha (tel. 11/3224-2196 / e-mail: [email protected]).


