Qual foi a primeira história em quadrinhos publicada no mundo? Se dirigida a especialistas, a pergunta suscitaria intermináveis controvérsias, afinal vários precursores concorrem para reinvidicar o marco inaugural do gênero. Há uma década, porém, tornou-se quase consensual atribuir o pioneirismo às narrativas protagonizadas por um menino careca e pobretão chamado ''Yellow Kid'' (Menino Amarelo).
O personagem criado pelo desenhista Richard Fenton Outcault apareceu nas páginas do jornal norte-americano New York World, em 1896, acompanhado pela primeira vez dos famosos balões que caracterizam a linguagem de arte sequencial. De lá para cá, incontáveis personagens saltaram das gráficas para as prateleiras conquistando gerações de leitores em todo o mundo - de Superman ao Pato Donald, da Turma da Mônica aos X-Men, de Tintin a Sandman, de Corto Maltese a Valentina, dos heróis dos mangás aos anti-heróis das graphic novels.
''Há quem faça quadrinhos para quem os está vendo pela primeira vez e há quem os faça para o público especializado'', escrevem Carlos Patati e Flávio Braga, autores do recém-lançado ''Almanaque dos Quadrinhos - 100 Anos de Uma Mídia Popular''. A obra sai dos fornos da editora Ediouro, a mesma que lançou almanaques dedicados às décadas de 70 e 80.
O volume traz um painel histórico das HQs. A dupla de autores é expert no assunto. Mais do que pesquisadores, são criadores de quadrinhos independentes com longa ficha corrida no mercado brasileiro.
O almanaque reúne 224 páginas ricamente ilustradas. Todos os estilos e correntes são enfocados. Em dez seções temáticas, o leitor acompanha em ordem cronológica a história das histórias em quadrinhos no Ocidente (detalhe enfatizado pelos autores) iniciando a viagem pela época em que as aventuras ainda eram publicadas em edições dominicais dos jornais norte-americanos.
Nessa primeira fase, as HQs eram histórias completas em uma única página. Posteriormente, surgiria o formato clássico das tiras, da piada desdobrada em três quadros.
O salto dos jornais para as revistas viria com ''Famous Funnies'', o primeiro gibi lançado nos Estados Unidos. As contrapartidas nacionais de outros países logo surgiriam, como ''Tico-Tico'', o precursor no Brasil. O sucesso do gênero levou à invenção das séries de humor e aventura povoando o mundo com criaturas de nomes como Krazy Cat, Wash Tubbs, Tintin, Buck Rogers, Tarzan e Príncipe Valente.
Mais tarde, o público seria conquistado pelo filão dos super-heróis cuja vasta galeria inclui superseres como Flash Gordon, O Fantasma, Mandrake, Superman, Batman, Capitão Marvel e Capitão América.
The Spirit nasceria nesse nicho, mas daria um passo além da linhagem. Criadas por Will Eisner, as histórias protagonizadas pelo detetive Denny Colt combinavam alguns clichês do gênero com texto de qualidade e traço refinado. Em suas tramas, seriam realizadas as maiores variações entre gêneros narrativos distintos de que se teria notícia no universo das HQs norte-americanas.
''Denny Colt se moveu, de início, no universo imediato das histórias policiais, mas logo transitou pelo horror, pela ficção científica, pelo humor, pelo fantástico, pela psicologia, pelo conto de fadas, pela fabulação infantil, pela narrativa romântica e pela História. Enfim, por onde a plasticidade e a versatilidade de seu estilo lhe permitissem chegar'' - assinalam os autores.
Will Eisner e suas graphic novels (termo cunhado por ele) elevariam o padrão das HQs em terras americanas. O ápice seria atingido durante a contracultura, nos anos 60, quando pipocaram publicações underground comandadas por Robert Crumb, Gilbert Shelton, S. Clay Wilson, Spain Rodriguez e outros artistas não menos bilhantes.
Segundo Patati e Braga, eles ''acabaram com todas as formas de censura formal ou informal que os quadrinhos podiam sofrer, até mesmo da parte de seus próprios criadores, que perderam o medo de enfrentar seus fantasmas pessoais no papel. Em nossos dias é difícil encontrar algum artista de HQ tão ousado quanto eles''.

Serviço:
- Lançamento: Almanaque dos Quadrinhos. Autores: Carlos Patati e Flávio Braga. Editora: Ediouro. Páginas: 224. Preço: R$ 40,00.

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