NAS PRATELEIRAS - Crítico destaca as obras-primas do cinema
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
O dramaturgo Nelson Rodrigues escreveu, certa vez, que a qualidade de um grande filme poderia ser constatada a partir de seus efeitos hipnóticos sobre um eventual ladrão que se escondesse no cinema para fugir da polícia. Não seria absurdo afirmar que o larápio talvez se acomodasse na poltrona e até esquecesse de seus perseguidores caso a tela exibisse um ou outro dos 100 filmes comentados pelo crítico norte-americano Roger Ebert no livro ''A Magia do Cinema'' (Ediouro).
Os 100 filmes, no caso, são os que ele considera os mais importantes do século 20. ''As produções atuais objetivam primordialmente atingir o grande público, nivelando-o por baixo, especialmente nestes últimos tempos em que Hollywood está orientada pelo mercado e que a sua máquina domina o cinema mundial. 'Se você explorar três conceitos num só filme, a regra será violada e o público desaparecerá', declarou Sean Penn à platéia durante o Festival de Edimburgo de 2001. Os filmes incluídos neste livro têm três ou mais conceitos'' anota o autor na introdução.
Roger Ebert é o único crítico de cinema a ganhar o cobiçado prêmio Pulitzer, o ''Oscar'' do jornalismo norte-americano. Além de escrever, dá aulas no departamento de Cinema da Universidade de Chicago, apresenta um programa de televisão e atua como curador do Overlookeed Film Festival na Universidade de Illinois selecionando filmes, estilos e formatos que acredita merecerem estudos mais aprofundados. Já publicou uma dúzia de livros. Em ''A Magia do Cinema'', ele analisa filmes indiscutíveis, mais da metade deles clássicos em preto-e-branco.
Entre as obras-primas resenhadas figuram ''Cantando na Chuva'', ''Cidadão Kane'', ''Psicose'', ''2001: Uma Odisséia no Espaço'', ''Casablanca'', ''Apocalipse Now'', ''Rio Vermelho'', ''Oito e Meio'', ''Encouraçado Potenkim'', ''O Ano Passado em Mariembad'', ''Crepúsculo dos Deuses'', ''A Malvada'', ''O Poderoso Chefão'', ''Sindicato dos Ladrões'' e ''M - O Vampiro de Dusseldorf''. Ebert lembra que viu dezenas de vezes alguns dos filmes elencados e, quarenta e sete deles, uma cena por vez.
Como muitos críticos de sua geração, ele não deixa de lamentar a progressiva queda de sensibilidade, percepção estética e memória do público atual. Diz que seus alunos ficaram menos interessados pelo passado. ''Mesmo entre aqueles estudantes de graduação em cinema, encontrei muitos que jamais viram qualquer filme de BuÀnel, Bresson ou Ozu'' conta.
O crítico revela que durante um curso sugeriu a projeção de ''Um Corpo que Cai'', mas foi obrigado a exibir o clássico de Hitchcock juntamente com o ''Clube da Luta'' (de David Fincher, com Edward Norton e Brad Pitt), a pedido da turma. ''Ele (Clube da Luta)'' assinala ''peca pela falta de unidade de seus temas, mas isto não é tão importante quando o público é assediado por sons e movimentos, quando as tomadas são mais rápidas, os filmes, mais barulhentos e quando os efeitos especiais substituem ou desviam a atenção do tema e da sua performance''.
Ebert atribui o desprezo aos clássicos à extinção dos cineclubes e à ascensão das locadoras. Ressalvando as maravilhas do vídeo doméstico (hoje substituído pelo DVD) para os amantes dos grandes filmes, ele assinala que a disponibilidade de títulos nem sempre atende a gostos mais refinados. ''Quando você entra numa videolocadora da sua vizinhança, e cartazes próximos à entrada mostram 'os mais recentes vídeos' dos arrasadores e espetaculares campeões de bilheteria produzidos por Hollywood, você precisará fuçar teimosamente no meios das sombras para encontrar 'filmes estrangeiros' e alguns 'clássicos' geralmente com uma seleção deplorável'' escreve.
Embora revele mal-estar com a contemporaneidade, o crítico escapa do estereótipo ''ranzinza-empedernido'' que só vê valor no que foi produzido antes dos anos 70. No livro, comenta filmes recentes rodados na década de 90 como ''A Lista de Schindler'' (Steven Spielberg), ''Pulp Fiction'' (Quentin Tarantino), ''O Silêncio dos Inocentes'' (Jonathan Demme), ''JFK A Pergunta que não quer Calar'' (Oliver Stone) e ''Um Sonho de Liberdade'' (Frank Darabont).
Quer uma amostra do estilo do autor? Confira o primeiro parágrafo da resenha que abre o livro: ''A genialidade de Stanley Kubrick em '2001: Uma Odisséia no Espaço'' não consiste no que ele mostra, mas sim no quanto é despojado. Esta é a obra de um artista tão sublimamente seguro que não inclui uma só tomada para manter a nossa atenção. Ele reduz cada cena à sua essência e a deixa na tela o tempo suficiente para que a admiremos, para que ocupe a nossa imaginação. '2001' é uma raridade entre os filmes de ficção científica, pois não está preocupado em nos excitar, mas em inspirar nossa reverência''.
É só uma palhinha. São 100 filmes comentados ao longo de 558 páginas e ilustrados com belas fotos PxB selecionadas pela curadora da Cinemateca do Museu de Arte Moderna de Nova York.
Serviço:
Livro: ''A Magia do Cinema''. Autor: Roger Ebert. Editora: Ediouro (tel. 21/3882-8200). Preço: R$ 59,00.


