O Brasil da máfia petista seria um alvo e tanto para os traços do cartunista paulista Alcy Linares. Mas para azar dos leitores, o artista trocou a charge política pela ilustração de livros infantis, uma mudança que ocorreu gradualmente a partir de meados da década de 80.
É até provável que com a opção sua assinatura passe despercebida pelas novas gerações, o que seria motivo suficiente para saudar a publicação do álbum ''Vida de Artista Humor, Cartuns, Charges e Ilustrações'', que acaba de chegar às prateleiras pela Devir Livraria em parceria com a editora Jacaranda.
O volume restitui a importância de Alcy para o humor gráfico nacional reunindo boa parte do que ele publicou em jornais (Pasquim, Movimento, Folha de S. Paulo, Estado de São Paulo e Jornal do Brasil) e revistas (Isto É, Veja, Exame e Senhor). Organizada pelo próprio autor, a antologia conta com prefácio do pesquisador Gonçalo Júnior e textos de apresentação dos irmãos Chico e Paulo Caruso.
Alcy garimpou o melhor de seu portfólio, dividindo o material em quatro séries ''O País do Futebol (e do Carnaval''), ''Recuerdos da Escuridão'', ''Miserê Maneiro'' e ''Vale Tudo''. ''Separei os que achava mais divertidos'' diz, na abertura do livro. A compilação enfatiza seu humor militante. A segunda série traz temas relacionados ao período da ditadura militar incluindo três trabalhos feitos para o Pasquim e vetados pela censura.
Um dos cartuns mostra um mendigo tirando um cochilo num banco de praça ao lado de um busto de Sigmund Freud, o criador da psicanálise. Ao abordar a desigualdade social, o comentário do artista alcança rara contundência crítica, a ponto de Gonçalo Júnior assinalar que tal registro superaria ''uma dezena de editorais juntos''.
É de Gonçalo ainda a observação de que Alcy ''é sinônimo de humor refinado, do artista que evita o balão, o diálogo, que fala pelas expressões e situações''. Paulo Caruso confessa humildemente: ''Sem nenhum exagero, ele foi o mestre de todos nós, com aquela cara de Netuno, barba e sobrancelhas espessas, guiando-nos entre as correntes e incertezas''. Seu irmão, Chico, diz que Alcy foi o primeiro cartunista que viu em carne e osso: ''É o único que eu conheço: o Ziraldo faz Ziraldos, o Jaguar faz Jaguares, o Alcy faz cartuns''.
Alcy é da cidade de Nogueira, colada à Bauru, no interior paulista. Mudou-se para São Paulo ainda no colo da mãe. Começou a desenhar ainda criança, período em que adorava ir ao salão de barbeiro para cortar cabelo acompanhado do pai só para folhear as páginas de humor da revista O Cruzeiro. Na juventude, fascinou-se pelo tablóide carioca Pif-Paf, editado por Millôr Fernandes. Nessa fase, criou histórias em quadrinhos, trabalhou em agências de publicidade e cursou Arquitetura na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP.
Pouco depois, iniciou sua bem-sucedida carreira pelos mais importantes veículos da imprensa nacional dedicando-se inteiramente ao cartum, tanto nos grandes jornais quanto nos títulos alternativos. No final dos anos 80, diminiu seu ritmo de trabalho e publicou suas duas primeiras histórias em quadrinhos na revista Circo com roteiros de um leitor e de Laerte. Até 1992, fez charge diária no Diário Popular.
No final da década, colaborou no esportivo Lance. Depois, voltou-se para ilustração de livros infantis desenhando para os principais escritores do gênero, como Ruth Rocha e Ana Maria Machado.

Serviço:
- Álbum '' Vida de Artista Humor, Cartuns, Charges e Ilustrações''. Autor: Alcy Linares. Lançamento: Devir Livraria e Editora em parceria com a Jacaranda. 64 páginas. Preço: R$ 23,00.

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