NAS PRATELEIRAS - A voz que ninguém esquece
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quinta-feira, 02 de fevereiro de 2006
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Tim Maia, é notório, deu bolo em incontáveis shows ao longo de sua trajetória. De tanto tripudiar a agenda, alimentou o folclore em torno de sua figura a ponto de ser lembrado sempre que algum artista comete o mesmo deslize. É até provável que ao ser convidado para gravar uma sessão do programa ''Ensaio'' na TV Cultura, em 1992, ele tenha deixado a equipe de produção aflita e com um plano B na manga.
Mas Tim deu as caras. E registrou, involuntariamente, uma edição histórica do programa. Histórica porque a gravação chegou há pouco às lojas como o primeiro DVD oficial do artista. O material, lançado pela gravadora Trama, traz o show acompanhado do depoimento marca do programa há mais de três décadas. Descontraído ao microfone, o pai da ''soul music'' brasileira puxa um carretel sucessos ao lado da inseparável Banda Vitória Régia: ''Gostava Tanto de Você'', ''Você'', ''O Descobridor dos Sete Mares'', ''Do Leme ao Pontal'', ''Vale Tudo'', ''Telefone'' e ''Um dia de Domingo''.
Inclui também três pout-pourri. O primeiro reúne as canções ''Primavera'', ''Azul da Cor do Mar'' e ''Se Me Lembro, Faz Doer''. Outro junta ''Meu País'' a ''Chocolate''. O terceiro, a surpresa do repertório, funde em ritmo de bossa nova as faixas ''Folha de Papel'' (Sérgio Ricardo) e ''A Rã'' (Caetano Veloso e João Donato) com Tim tocando flauta. Na ocasião, a banda era formada pelos músicos Serginho Trombone (trombone), Paulinho Black (bateria), Tinho Martins (sax), Chumbinho (baixo), Cebolinha (percussão), Bartolo (trompete), João Bosco (teclado) e Marcus Nabuco (guitarra).
No depoimento a Fernando Faro, o diretor do programa, o ''bad boy'' da MPB fala de diversos assuntos. Sobre a família, é pródigo em elogios: ''Meu pai era maravilhoso e minha mãe era fora-de-série. Ele trabalhou a vida inteira para sustentar todo mundo. Era severo como todos os pais da época. Dava umas palmadinhas. Morreu quando eu tinha 16 anos. Minha mãe morreu no ano passado. Eu sou o 18º filho. Minha mãe teve 19 filhos, teve uma menina, que morreu no dia seguinte. Então, eu continei sendo o caçula. Os filhos cresceram fortes. Meus irmãos são todos legais e trabalhadores. O mais doidão sou eu mesmo. Aprendi assim na rua'' diz ele num trecho.
Referindo-se aos tempos da juventude na Tijuca (bairro da zona norte do Rio de Janeiro), lembra que cantava ao lado de Roberto e Erasmo Carlos. ''Eu ensinei o Erasmo a tocar violão'' diz. Em outra passagem, narra o período em que viveu nos Estados Unidos (1959-1964): ''Para viajar eu menti para todo mundo e quando cheguei lá acreditei no que eu tinha falado. Falei que tinha uma família me esperando e fiquei lá esperando. Trabalhei de faxineiro, em asilo de velho, fazendo comida rápida. Trabalhei, em geral, em lugar que tinha comida e dormida. Fui preso várias vezes, três vezes por vadiagem'' conta.
Tim foi deportado pelo governo americano após ser preso fumando maconha com dois amigos num carro roubado. Ficou seis meses em cana. Bem-humorado, ele não deixa escapar a chance de disparar suas máximas: ''Eu acredito que existam seres extra-terrenos, intra-terrenos, em outras vidas. Acredito que tudo isso é um molde, uma fôrma de vidas passadas. E agora estou em outra, meu irmão, acredito em seres futuros também, tá me entendendo. Então, tudo é tudo e nada e nada''.
Além de Tim, outros artistas foram contemplados pela Trama com DVDs dedicados ao programa ''Ensaio''. Já saíram títulos de Elis Regina e Gal Costa. E, nesta semana, as lojas estarão recebendo as edições de Baden Powell e Tom Zé.


