NAS PRATELEIRAS - A década mágica do rock
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terça-feira, 01 de fevereiro de 2005
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A década de 60, a década mágica, persegue gerações. Quem viveu as turbulências da época, tem sempre histórias loucas para contar. Quem nasceu depois, parece descobrer ali as referências para orientar suas inquietações.
O livro ''A Revolucionária Metamorfose Musical dos Anos 60'', de autoria de Victor Antonio Fernandes Gioscia, reforça a idolatraria em torno de um dos períodos mais fascinantes do último século. Mas seu foco é o rock, mais especificamente ''a invasão britânica'', fenômeno que se caracterizou pela emergência de bandas inglesas nas paradas mundiais a partir do estouro da beatlemania nos Estados Unidos.
Victor reconstitui o período argumentando que os súditos da Rainha foram os responsáveis pela revitalização do rock quando o gênero agonizava na terra do Tio Sam após a fase inaugural protagonizada por pioneiros como Elvis Presley, Bill Halley & The Comets e Little Richard. O autor afirma que em fins de 1958, quatro anos depois de pular do berço, o rock já estava em declínio.
''A questão era facilmente identificada pela constante queda nas vendas de discos do ritmo'' lembra. ''No começo de 1960, a voracidade própria da juventude consumidora denotava sinais cristalinos de esgotamento. Para o sistema, o pesadelo havia passado. Entre os apreciadores notava-se um certo desânimo, posto que a criatividade original e espontânea de anos anteriores estava em baixa''.
A esses fatores, ele acrescenta uma série de problemas que tirou os principais artistas de circulação. Elvis estava longe dos palcos servindo o exército. Ao retornar, teria manchado o prestígio passando segundo o autor ''a ser um cantor-ator em filmes de gosto duvidoso, cujo personagem principal era sempre ele próprio, interpretando músicas românticas enfadonhas''.
Já Bill Halley, que havia emplacado o hit ''Rock around the Clock'' em 1954, recolheu-se em sua fazenda sem disposição para compor. Little Richard, por sua vez, sofrera um desastre de avião. Após a recuperação, abandonou a carreira por alguns anos optando por dedicar-se à religião. Jerry Lee Lewis caíra em desgraça estampando manchetes sensacionalistas na imprensa após a descoberta de seu casamento com uma prima de 13 anos de idade.
Buddy Holly e Eddie Cohran, por fim, fecharam com nuvens negras o período morrendo tragicamente, o primeiro num acidente de avião e o segundo num acidente automobilístico. Entre as figuras renomadas, apenas Chuck Berry mantinha-se atuante, o que era insuficiente para devolver o gênero às paradas. Mas se apatia dominava a cena musical norte-americana, uma ebulição de novas bandas ruidosas ocorria na Inglaterra, sobretudo em Londres e Liverpool.
O autor anota: ''Todas as bandas possuívam características análogas: eram jovens de classe média baixa, que pertenciam a grupos de quatro ou cinco componentes, tocavam rock'n'roll e rhythm'n'blues em clubes noturnos e não tinham contrato com gravadoras''. Os Beatles puxavam a fila acompanhados de grupos como The Rolling Stones, Dave Clarke Five, Gerry and the Pacemakers, The Hollies e The Seachers.
A excursão dos fab four aos Estados Unidos, em fevereiro de 1964, desencadeou finalmente a chamada ''invasão britânica'' após fracassadas tentativas dos ingleses para emplacar nomes como Cliff Richard e The Shadows. A turnê americana de Paul, John, George e Ringo virou o panorama musical de cabeça para baixo. Foi o estopim para que o rock explodisse em toda a América e no restante do mundo.
''É óbvio que os ingleses gravavam música antigas de artistas americanos; entretanto, com mais volume de som, com arranjos mais atualizados; com uma batida mais poderosa e vocais precisos'' ressalta o autor. Além das diferenças musicais, os brit kids inovavam também no visual combinando cabelos compridos, franjas, ternos bem-cortados, roupa justas e botas de salto mais alto.
''O rock não era mais privilégio exclusivo de músicos dos Estados Unidos. O rock criado pelos americanos havia sido aperfeiçoado e modernizado pelos ingleses. A supremacia da música britânica era flagrante, impressiva e incomensurável'' sublinha ele. Todavia, a ''invasão'' não se restringia a bandas. Os cantores Tom Jones e Engelbert Humperdinck, donos de vozes potentes, também se destacavam no movimento interpretando canções de forte apelo pop.
A resposta americana ao som anglo-saxão viria com o cantor Roy Orbison, amigos dos Beatles, com os quais fez uma excursão na Grã-Bretanha. Em 1964, ele lançou um compacto (single) com a faixa ''Pretty Woman'', que humilhou a concorrência ao escalar o topo das paradas revelando similaridades com o novo estilo musical bretão. Entre os grupos, o pesquisador aponta o quinteto Gary Lewis and the Playboys como o primeiro a tentar se adaptar ao estilo british.
Gary era filho do famoso comediante Jerry Lewis. Com sua banda, fez grande sucesso entre 1965 e 1967, inclusive no Brasil onde teve a canção ''Forget Him'' regravada numa versão em português por ninguém menos que Roberto Carlos, que a rebatizou para ''Esqueça''. A reação americana destacaria ainda The Byrds, Tommy James and The Shondells, The Monkees até a chegada do rei da guitarra Jimi Hendrix e de bandas como The Doors e Creedence Clearwater Revival.
Convém ressalvar que o painel lança luzes sobre o período a partir do que tocou em rádio e conquistou as paradas. Não vasculha o ''lado B'', não envereda pelas garagens psicodélicas que estremeciam ao som de bandas como Sonics, Seeds, Moby Grape, Blue Cheer e Blues Magoos. O que interessa ao autor são as bandas e artistas mais expressivos dos dois lados do Atlântico, às quais dedica capítulos especiais.
Além das citadas, traz biografias do The Who, Cream, Led Zeppelin, The Animals, The Kinks, Yardbirds, The Zombies, Herman's Hermits, The Troggs, Them e outras não menos famosas. Ao final do volume, Victor Gioscia ressalta a importância dos grupos britânicos da época lembrando que eles foram responsáveis pela criação de uma ''tradição'' entre os ingleses.
Uma ''tradição'' ou ''expressão popular'' comparável ao chapéu-coco, ao guarda-chuva, ao ônibus de dois andares, ao volante do lado direito, a cabine telefônica vermelha, o Big Ben ou à troca de guarda no Palácio de Buckingham.
Serviço:
- Livro ''A Revolucionária Metamorfose Musical dos Anos 60''. Autor: Victor Antonio Fernandes Gioscia. Páginas: 290. Editora: Suliani (e-mail: [email protected] tel: 51/ 3384-8579).


