Foi num dia de Natal, há vinte e sete anos, que Charles Chaplin morria em seu pequeno e calmo retiro suíço de Vevey. A lembrança do fato me ocorreu na locadora, diante daquelas irresistíveis caixinhas de DVD duplos recheadas com as melhores iguarias, uma espécie de cesta básica com imagens muito próprias para o consumo nesses dias em que é sempre possível acrescentar dignidade à indolência e reflexão ao ócio. Nenhum lançamento mais recente, nenhum hit de box office, nenhum título com a garantia do aval da crítica, absolutamente nada nas estantes capaz de projetar pequena sombra que seja sobre a obra deste artista maior que a vida.
Para os fãs de Chaplin, o relançamento recente no Brasil de ''Tempos Modernos'', ''Em Busca do Ouro'', ''O Grande Ditador'' e ''Luzes da Ribalta'' não poderia ser mais impecável, em esplêndidas cópias em DVD restauradas pela Cinemateca de Bolonha, e com distribuição mundial garantida através de acordo firmado há dois anos em Cannes entre a MK2 francesa, a Warner Bros. e a família Chaplin. A estes títulos em breve se somarão outros, ampliando a indispensável galeria de títulos chaplinianos.
Mas quem é hoje fã de Chaplin? Em 1926, um crítico escreveu: ''Quando se pergunta a uma criança se ela gosta de cinema, ela responde que gosta de Carlitos''. O tempo passou, a técnica cinematográfica evoluiu, a linguagem mudou. Os filmes são agora exibidos para uma geração que se acostumou a consumir imagens em movimento nas telas da TV. O teórico Marshall McLuhan disse uma vez que essa geração desenvolveu mentalidade visual. Suas percepções não são mais lineares, como aquelas criadas a partir das páginas de um livro, mas assimiladas integralmente da cena. De maneira geral, esta geração MTV não tem paciência com os filmes mudos. A garotada capta a idéia de uma tomada logo no primeiro lance. E quando ela persiste na tela, riem porque lhes parece um prolongamento desnecessário. Não foi por acaso que os filmes foram ficando cada vez mais rápidos, a montagem cada vez mais multifacetada.
Para apreciar devidamente a grande maioria das obras de Chaplin, o espectador precisa se distanciar da mentalidade videoclipe, caso contrário não se entregará aos temas sempre atuais, ao encantamento agridoce das histórias. Em ''Modern Times'', de 1936, filme que encerrou oficialmente Cannes-2003, as questões propostas por Chaplin são as mesmas de hoje: desemprego, greves, desumanização em escala industrial.
Quem contou em Cannes foi a filha Geraldine, mesmo sorriso, mesmos olhos do pai: ''Durante uma viagem à Europa, papai se encontrou com Einstein. Entre tantos assuntos, os dois conversaram sobre as relações do trabalho. Assombrado com tudo o que ouviu do artista, o cientista disse: 'Mas você não é um ator, é um economista!'. Papai ficou tão lisonjeado que começou a escrever um livro que batizou de 'A Solução Econômica', no qual pregava a redistribuição mais justa, não apenas da renda, mas também do trabalho, com a jornada de 36 horas hoje na ordem do dia''. Mas o livro jamais foi concluído: Chaplin encontrou Paulette Godard, se apaixonaram e juntos partiram à procura da justa modernidade dos tempos, ele operário rebelde, ela moleca travessa.
O que é sempre ótimo em Chaplin é que sua maneira de filmar autoriza uma riqueza de leituras e significados. Sua sintaxe, como já se viu, não é da geração MTV. Mas seus filmes não são indispensáveis só para os mais velhos e os nostálgicos do grande humor do passado. Este homem, Chaplin, este personagem, Carlitos, 60, 70 ou 80 anos depois, ainda pode dar lições de arte. E de vida.

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