Prisão é uma invenção que nenhum animal foi capaz de criar, a não ser o homem. Um isolamento que pode assumir a imagem de faca de dois gumes sem cabo. Uma situação em que tudo o que estiver por perto torna-se passível de ferimento, dor e sofrimento.
  Toda forma de prisão caminha por duas estradas básicas. A primeira seria aquela em que um homem aprisiona outro homem, isola-o num espaço específico e restrito. A segunda seria aquela em que um homem aprisiona a si mesmo, isola-se no interior de sua própria mente.
  Em seus romances, o escritor inglês Patrick McGrath prefere sempre percorrer a segunda estrada. Talvez porque, nela exista apenas duas opções aos andarilhos: escolher o isolamento ou ser escolhido por ele. Qualquer que seja a opção, o tormento será o mesmo. Loucura e morte, nada mais, nada menos.
  A Companhia das Letras está lançando um novo livro de McGrath, ‘‘Spider’’. O romance é o delirante relato de uma homem preso em sua própria mente. Desprezando os limites entre realidade e imaginação, entre loucura e razão, constrói um mundo próprio para não ser esmagado pelo mundo externo. E, nesse processo de construção, em busca de uma possível salvação, edifica sua própria morte.
  Em ‘‘Spider’’ é a angustiante história de Dennis, um garoto esquizofrênico que perambula pela periferia de Londres durante a primeira metade do século 20. Por colecionar moscas e outros insetos, recebe o apelido de Spider. De comportamento extremamente solitário, é perturbado pela crença de que o pai assassinou a mãe, enterrando-a num canteiro de batatas. O papel da mãe é assumido por uma prostituta que o pai leva para morar em casa.
  Acusado do assassinato da mãe, o garoto permanece preso num hospício durante 20 anos longos anos. Quando é libertado, não sabe mais viver no mundo exterior, apenas isolado em sua mente perturbada. Em ‘‘Spider’’ – adaptado para o cinema por David Cronenberg – é praticamente impossível saber onde está a realidade e onde está o delírio de Dennis. As fronteira são rompidas e cabe ao leitor escolher entre a visão esquizofrênica de Spider ou as parcas informação da realidade que invadem sutilmente sua mente.
  Ao deixar o hospício, passa a viver numa pensão que abriga ex-pacientes com problemas mentais. Vivendo oprimido pelo lugar e pela imagem da dona do local, passa a acreditar que está transformando-se, fisicamente, numa aranha. Seu tormento aumenta quanto mais se aproxima da realidade. Seu delírio ganha materialidade quanto mais penetra na imaginação.
  Os romances de Patrick McGrath, entre eles ‘‘Manicômio’’, ‘‘A Doença de Haggard’’ e ‘‘Spider’’, são sempre revestidos por uma aura sombria. Isso porque revelam como as forças destrutivas nascem nos lugares menos prováveis, como no amor. Aquilo que seria um princípio libertador, assume a imagem de prisão. Uma prisão erguida pelos braços do condenado.
  A loucura é um tema recorrente na obra de McGrath. Em seus romances o homem não é senhor de seu destino. Ele é, invariavelmente, arrastado pelos seus sentimentos para o caos, perdendo o controle sobre si mesmo. A única exceção ficaria nas mãos do suicídio que, independente da loucura humana, sempre assinala alguns espasmos de lucidez.

''Não consigo dormir, nem comer, não posso escapar da sensação constante, onipresente, quase paralisante de que tudo ao meu redor está ficando vazio, mudo, morto. O próprio ar parece cheio de morte! Já me ocorreu mais uma vez que eu estou morto a presença em meu corpo de vermes e aranhas parece sugerir isso, o definhar de meus órgão vitais, o cheiro de morte e podridão que sai continuamente por minha pele, agora não são sinais de morte? Quando ela ocorreu? Houve um momento da morte, um momento no qual se pudesse dizer, agora ele está vivo, e depois dizer, agora ele está morto? Duvido muito. Creio que foi gradual, uma morte lenta que começou no dia em que parei debaixo do relógio de Ganderhill com minha mala de papelão e as três notas de uma libra embora me pareça que talvez tenha começado muito antes, na noite em que minha mãe morreu, e que desde então estou apenas queimando, sendo consumido por dentro até virar cinzas e pó, tendo preservado apenas os movimentos externos, os gestos espasmódicos e as atitudes da vida. Portanto, talvez não tenha sido uma vida, absolutamente, mas uma deterioração de um corpo unido apenas por pauzinhos e pedaços de barbantes, como construído por uma criança.''
(Fragmento de ''Spider'', de Patrick McGrath)

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