Nas fronteiras da linguagem
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 20 de julho de 1998
Luiz Carlos Merten Agência Estado 
Seus leitores nunca precisaram ir a Porto Alegre para conhecer o Bom Fim, o bairro judeu da capital gaúcha, que o escritor Moacyr Scliar descreve tão bem em seus livros. Aos 55 anos, autor de 46 livros - o último publicado foi A Majestade do Xingu, o próximo deve sair em seguida - Scliar está prestes a alargar ainda mais seus horizontes, que há muito se espalham além das fronteiras nacionais.
Considerado a maior expressão do humor judaico na literatura brasileira contemporânea, ele está virando o escritor mais filmado das safras recentes do cinema brasileiro. Há cinco projetos em andamento adaptados de seus livros. O próprio Scliar os enumera: Há Um Sonho no Caroço do Abacate, dois baseados em Sonhos Tropicais, um em O Ciclo das Águas, que vai virar O Cemitério das Polacas, e O Exército de um Homem Só.
Na verdade, há um sexto projeto, mas esse é internacional: O Centauro no Jardim foi comprado nos Estados Unidos para virar filme, possivelmente de Alfonso Arau, o diretor de Como Água para Chocolate. Scliar acompanha as adaptações a distância. Pessoalmente, empenhou-se apenas na adaptação de O Cemitério das Polacas. Entregou o primeiro tratamento ao produtor Anibal Massaini Neto. Agora o Lauro César Muniz entra em cena para escrever o roteiro definitivo, conta. Cinéfilo confesso, Scliar reconhece no cinema a grande linguagem do século 20. Mas é uma linguagem que ele não domina. Admite-o com franqueza: Sou um escritor, um homem da palavra, não da imagem, resume.
A linguagem do cinema possui características específicas. Para adaptar O Cemitério das Polacas ele teve de reinventar a estrutura de O Ciclo das Águas. O livro conta a história das judias polonesas que foram aliciadas para virar prostitutas no Brasil e na Argentina. Scliar manteve a personagem, mas mudou a estrutura do romance. Criou novas situações, novos personagens que Muniz vai transformar em figuras de cinema.
Outro escritor talvez tivesse vendido caro seus direitos. Em Hollywood, as transações de roteiros envolvem muitas vezes milhões de dólares. Não sou ambicioso, diz o escritor. Cobrei modestamente. Não entra em detalhes de números, mas a declaração já havia sido confirmada por Lucas Amberg, quando rodou Um Sonho no Caroço do Abacate em São Paulo, com dois atores americanos no elenco (Elliott Gould e Talia Shire). A modesta exigência de Scliar também é destacada por Ricardo Zimmer, o diretor de O Exército de um Homem Só. André Sturm e Sílvio Tendler, que estão à frente dos projetos ligados a Sonhos Tropicais, sobre Osvaldo Cruz e a revolta da vacina, também não teriam do que se queixar.
Mesmo assim, Scliar acredita estar fazendo um bom negócio. Bom para ambas as partes, ele esclarece. Os diretores trabalham sobre histórias já estruturadas, com personagens desenvolvidos e ele, em troca, ganha os espectadores que poderão transformar-se em leitores potenciais de seus livros. Ele comenta o atual momento do cinema no País. Acompanho o cinema brasileiro desde criança, sou do tempo em que produção nacional era sinônimo de coisa malfeita, tecnicamente pobre. Admira-se, hoje, de ver como o cinema brasileiro investe numa técnica mais segura, mas o importante, para ele, é constatar que os diretores fazem filmes voltados para a realidade. Colocam o Brasil, em toda a sua diversidade, na tela. Reconhece, porém, que ainda não surgiu o grande filme que vai marcar a consolidação, o momento atual, posterior à retomada da produção.
Desde guri, para usar uma terminologia gaúcha, Scliar é apaixonado por cinema. Adora Kubrick, a nouvelle vague, o Bergman da primeira fase. Mas não é fã só do cinema de arte. Encontra muito prazer em pequenos filmes, filmes de linha. Tem na ponta da língua o filme de cabeceira, aquele que admira mais do que todos. É um filme de Vittorio De Sica: Milagre em Milão. Talvez seja por causa do humor, talvez por um certo elemento de fantasia presente naquele clássico do diretor italiano, mas o certo é que Scliar guarda uma excelente lembrança de Milagre em Milão.
Ele pode falar horas seguidas sobre o assunto cinema. Acha que o cinema ensinou muito aos escritores. De maneira geral, os livros encolheram, sumiram as descrições coisa que o cinema consegue fazer melhor, com um simples movimento de câmera deixando ver aquilo que o escritor precisaria de muitas páginas para sugerir. O cinema obrigou os autores a repensar a linguagem, a fazê-la evoluir. Cita Kafka, Joyce.
Volta aos filmes. Houve um momento, depois do vídeo, em que Scliar pensou que terminaria o ritual de ir ao cinema. Observa, com prazer, que ele continua. Frequenta, em Porto Alegre, o Guion, um conjunto de salas com lojas de discos, livros, bares e restaurantes, que exibe os melhores filmes da capital gaúcha. Ir ao cinema é hábito de congregação, define. Espera ver, em seguida, os filmes adaptados de seus livros.
Quando solicitado, atua como supervisor dos roteiros. Lê, dá sugestões, acompanha a movimentação. Esteve em São Paulo para a rodagem de Um Sonho no Caroço do Abacate, comunica-se regularmente com Sturm e Massaini Neto. Gostou do clima no set do filme de Lucas Amberg. Esse namoro com o cinema não o desvia de sua atividade de escritor. Acaba de concluir o 47º livro. É uma experiência na área da literatura juvenil.
A Ática constatou que a linguagem de O Guarani, de José de Alencar, não satisfazia mais ao público jovem, que é forçado a ler o livro como parte de atividades escolares. A editora pediu a Scliar que recontasse a trama do clássico do romantismo brasileiro. Scliar concebeu então a história dos jovens que fazem uma adaptação de O Guarani para o vídeo. O livro chama-se Câmera na Mão, O Guarani no Coração.
Médico sanitarista da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul, Scliar soma essa atividade à de escritor, que começou a desenvolver ainda menino, quando escrevia histórias em papel de pão, que tentava vender aos pais. Em 1966, com 23 anos (nasceu em 1943), participou da antologia Contos de Médicos. Não parou mais de escrever. Em 1968 publicou O Carnaval dos Animais, um livro de contos. Em 1972, veio A Guerra do Bom Fim; em 1973, O Exército do Homem Só, que estabeleceram sua reputação. Sua obra já foi traduzida para diversos idiomas, incluindo inglês, francês, espanhol, alemão e búlgaro. Concluído o projeto do seu livro juvenil, está em fase de gestação do próximo livro. Pensa, faz anotações, a inspiração já vem, mas logo em seguida vira uma questão de trabalho. Scliar escreve com disciplina, todos os dias. O 48º livro é uma questão de (pouco) tempo.


