Nas entrelinhas de uma tragédia
Da Redação
A história é trágica. Ciente do romance de sua esposa com o tenente Dilermando de Assis, Euclides da Cunha invadiu o local onde o casal se encontrava e disparou sete tiros contra o militar. Bom nas letras, o escritor era ruim de mira. Ferido, Dilermando pegou uma arma e revidou com seis balas certeiras. O fato se deu em 15 de agosto de 1909. Amanhã completará 90 anos.
O decorrer do tempo foi ainda mais trágico. Revoltado com a morte do pai, Quidinho - filho de Euclides e a esposa, Ana - invadiu a sala onde Dilermando prestava depoimento, seis anos depois, sobre o assassinato do escritor, e disparou cinco tiros à queima-roupa. Novamente Dilermando sobreviveu e reagiu, matando-o também. Dilermando viveu mais 40 anos, com quatro balas incrustadas no corpo, resquícios dos 12 tiros que levou.
O assassinato de um dos escritores mais importantes da literatura brasileira poderia ter sido evitado, não fosse a convicção de Euclides em matar Dilermando. Mesmo atingido por sete balas, o militar atirou no pulso do escritor para desarmá-lo. A bala acertou o alvo, mas Euclides não largou a arma. Só então Dilermando atirou para matar. O episódio ficou conhecido como A Tragédia da Piedade.
Como escritor, Euclides da Cunha é considerado leitura obrigatória. Os Sertões é um marco na literatura nacional. Euclides da Cunha nasceu na Fazenda Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, no município de Cantagalo, no Rio de Janeiro. O pai, Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha, era um comerciante que gostava de escrever versos.
Com a morte da mãe, Euclides, com três anos de idade, mudou-se para Teresópolis, onde foi criado por duas tias. Em uma das diversas escolas que frequentou, fundou o jornal O Democrata, publicando seu primeiro artigo em 1884. O escritor viveu numa época marcada por grandes transformações sociais e políticas, quando, por exemplo, o trabalho escravo foi extinto e o regime monárquico foi substituído pelo republicano.
Em 1887, Euclides da Cunha entrou para a Escola Militar, de onde seria expulso em alguns meses por indisciplina, ao realizar um protesto quebrando sua espada e jogando-a aos pés do Ministro da Guerra, durante um desfile militar na Praia Vermelha. Com o pseudônimo de Proudhon, tornou-se colaborador permanente do jornal A Província de São Paulo, ao mesmo tempo em que ensaiava os primeiros escritos literários.
Terminou o ensino superior, formando-se em Engenharia e Matemática, além de Ciências Físicas e Naturais. A leitura era o passatempo predileto, ao qual dedicava horas. Também voltou ao exército e se tornou tenente.
Em 1897 foi convocado para cobrir a Guerra de Canudos, no sertão baiano. No conflito, Euclides colheu as informações e o ambiente para compor Os Sertões, publicado em 1902. A primeira edição se esgotou com rapidez e, ainda no mesmo ano, Euclides da Cunha foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.
Sua visão política rumou em defesa das classes menos favorecidas. Tanto que, em 1900 fundou o Clube Internacional Filhos do Trabalho. Na verdade, um partido socialista, que por meio do jornal O Proletário publicou vários manifestos de protesto de Euclides da Cunha.
A tuberculose começou a dar os primeiros sinais aos 40 anos de idade. Para não ficar rotulado como autor de uma obra só, Euclides da Cunha publicou, em 1907, Contrastes e Confrontos e, no mesmo ano, Peru Versus Bolívia. À Margem da História só foi lançada após sua morte.





