A nova geração de leitores talvez o confunda com um autor de mangás. Poucos, provavelmente, saberão citar títulos ou nomes de personagens criados por Julio Shimamoto. Mas, desconhecido pela garotada, o mestre do quadrinho nacional ostenta mais de quatro décadas de atuação na área.
Aos 64 anos, continua produzindo como nunca, apesar das oscilações do mercado de HQs no Brasil. ''Musashi'', seu novo trabalho, chegou às bancas em dois álbuns de luxo resgatando a saga dos samurais do Japão feudal. As aventuras foram inspiradas na saga do guerreiro homônimo, que ganharia a posteridade como o mais famoso espadachim de seu país.
As narrativas partiram de relatos existentes sobre o personagem e de causos que ouvira do pai em Borborema, cidade do interior de São Paulo onde passou boa parte da infância. A série recapitula um lugar e uma época remotas, quando a honra de um homem era medida por sua habilidade em combate.
''Musashi'' aparece como um sujeito atormentado, humanizado, desmistificando a figura do herói milenar que sobreviveu pela tradição oral e escrita. Nos traços, o autor recorre ao guekiga, a técnica do desenho dramático. Se não apresenta os elementos mais caricatos dos mangás, como os olhos grandes dos personagens, revela influências do gênero nos enquadramentos e no estilo filosófico de contar a história.
Ao descrever cenas de ação, ele exercita jogos de sombras cujos contrastes já foram comparados ao efeito rústico da xilogravura. Shimamoto inventou ainda um recurso peculiar para deformar desenhos, que dispensa o computador substituindo-o pelas bexigas de festa. Mais barato, o método consiste em desenhar num papel fino decalcando o traço com o auxílio de uma caixa de luz na textura de uma bexiga esticada.
Basta repuxá-la depois, como quiser, e copiá-la numa xerox. Artesão, ele usou tinta de parede para pintar as capas inspirando-se na estética dos livros de bolso americanos dos anos 40 e 50. O primeiro volume de ''Musashi'' traz, além das histórias, uma míni-biografia de Julio Shimamoto. O texto, assinado por Gonçalo Junior, reforça a mitologia em torno do autor elencando-o na seleta galeria de mestres na qual figuram os norte-americanos Stan Lee e Will Eisner e os brasileiros Flávio Colin e Cláudio Seto.
Os dois álbuns saíram pela editora Opera Graphica, pela qual publicou ainda títulos como ''Volúpia'', ''Sombras'' e ''Madame Satã Cassino''. Este último, produzido em parceria com Luiz Antonio Aguiar, rendeu-lhe troféus como melhor desenhista e melhor lançamento de 2002 na 19 edição do Prêmio Angelo Agostini.
Serviço:
''Musashi'' e ''Musashi II''. Lançamento: Editora Opera Graphica. Em Londrina, pode ser encomendado na Bat Banca (Rua Raposo Tavares nº 687, tel. 43/337.0587). Em Curitiba, na Itiban Comic Shop (Av. Silva Jardim nº 845, tel. 41/232.5367).

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