NAS BANCAS - A saga dos quadrinhos
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de março de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A história das histórias em quadrinhos já foi contada em livros. Mas sempre é possível deter-se sobre uma passagem ou outra dessa trajetória, redimensionando acontecimentos que estudiosos anteriores apenas sugeriram, citaram ou simplesmente ignoraram.
O pesquisador paulista Diamantino da Silva, por exemplo, resgata um dos períodos mais férteis do mercado nacional de publicações com o lançamento do livro ''Quadrinhos Dourados A História dos Suplementos no Brasil'', que acaba de chegar aos leitores pela editora Opera Graphica.
O autor, um expert no assunto, escreveu anteriormente os livros ''Desenho e Figura Humana'', ''Como Fazer Desenhos Animados'' e ''Quadrinhos para Quadrados''. Na nova empreitada, ele revisa a saga pioneira dos suplementos juvenis, precursores na publicação de HQs no País ao lado de revistas desbravadoras como ''O Tico-Tico''.
A narrativa mescla memorialismo ao relato documental num misto de autobiografia e pesquisa enciclopédica. O autor abre o volume revisitando os anos de sua infância, vividos em Santos (SP), quando dividia as brincadeiras de rua com sessões de cinema e leitura de jornaizinhos como ''Suplemento Juvenil'', ''A Gazetinha'', ''O Mirim'', ''O Lobinho'' e ''O Globo Juvenil''.
Lembra como, em 1934, o jornalista Adolfo Caizen decidiu lançar o primeiro suplemento de quadrinhos no País após voltar de uma viagem a Nova York onde esse gênero de publicação fazia enorme sucesso. Conta que, lá como aqui, os tablóides surgiram encartados em jornais trazendo aventuras de heróis como Flash Gordon, Jim das Selvas, Buffalo Bill, Dick Tracy, Príncipe Valente, Mandrake e vários outros que povoam até hoje o imaginário popular.
Ficamos informados que, posteriormente, os suplementos passam a sair com tiragens avulsas em edições próprias. Num capítulo, Diamantino exalta o papel educativo desempenhado por essas publicações. Recorda como saiu em defesa das HQs ao redigir uma redação elogiosa em sala de aula numa época em que o gênero começava a ser marginalizado, acusado de estimular a preguiça intelectual e representar ameaça à literatura séria.
''Embora aconselhado por colegas a não o fazer, fui o único que discordou dessas acusações (lançada por seu professor de Português e História do Brasil) e defendi os quadrinhos na redação que redigi'' conta. ''No dia seguinte, o professor Aguinaldo, antes de devolver os trabalhos solicitados na aula anterior com as respectivas notas, me chamou lá na frente e indagou em que eu me baseara para fazer tais afirmativas. Eu, que já esperava por isso, tive o cuidado de levar alguns exemplares do 'Suplemento' que selecionei, atestando tudo o que escrevera. Não se cheguei, com este meu gesto, a convencê-lo completamente. O certo, porém, é que serviu para amainar a tempestade que meus colegas estavam prevendo. Ainda acabei ganhando a nota sete e meio, pelo trabalho''.
Diamantino relata ainda como o jornalista e empresário Roberto Marinho derrubou a concorrência ao incursionar no ramo dos jornaizinhos com a publicação do ''Globo Juvenil'', a partir de agosto de 1939. Páginas adiante, ao abordar a extinção desse título em 1950, o autor chega também ao fim de sua narrativa fechando o volume com uma cronologia dos suplementos. O livro está à venda a R$ 14,90.


