O sucesso da peça ‘‘Boeing Boeing’’, de Mac Camolletti, vai completar 40 anos. As montagens acontecem em todo o mundo e na França o espetáculo bateu todos os recordes de permanência em cartaz. O vaudeville narra as aventuras de Bernardo, um bon vivant que se envolve com três aeromoças. A peça entrou em cartaz no Rio de Janeiro, e traz no elenco traz Luciano Szafir, Maria Ceiça, Vic Militello e Raul Gazzola, entre outros. Quem assina a direção é o paranaense Darson Ribeiro, 35 anos, nascido em Cornélio Procópio.
A princípio, Darson foi criticado pelo peso pesado das artes cênicas, o diretor Antônio Abujamra, por dirigir o estreante Luciano Szafir, considerado no meio intelectual como apenas um nome comercial para chamar o público. ‘‘Boeing Boeing’’, no entanto, além de lotar o Teatro Grandes Atores, recebeu elogios da inflexível crítica teatral Bárbara Heliodora.
Na cena teatral carioca, Darson Ribeiro volta a trabalhar como ator na peça ‘‘Killer Disney’’, do inglês Phillip Ridley, com direção de Ney Matogrosso. Nesse espetáculo, Darson contracena com Claudio Heinrich e Guta Stresser. Outro empreendimento que receberá os holofotes da mídia no mês de maio será a inauguração de um novo Teatro e um Café Teatro, funcionando 24 horas, numa área nobre da Gávea. Darson conseguiu em regime de comodato com a Cedae (Cia. Estadual de Desenvolvimento de Água e Esgoto), a reforma e uso do espaço. Ele pretende levar para esse espaço grupos de teatro do Paraná, cujos trabalhos os cariocas precisam conhecer.
Em entrevista à Folha2, Darson Ribeiro contou trechos de sua trajetória como ator, diretor e produtor teatral. Ele nasceu no sítio Colônia Central, em Cornélio Procópio, saindo de sua cidade pela primeira vez aos 18 anos. Para ir à escola percorria a pé um bom trecho pelo cafezal. Sua mãe era diretora de uma minúscula escola de madeira, que mais tarde foi transformada numa grande escola de alvenaria. Esse fato acabou refletindo posteriormente em sua carreira teatral. A determinação para transformar esse espaço ficou registrado como inspiração para ele trabalhar com produção teatral, que requer também muita determinação.
Ainda em Cornélio Procópio trabalhou com Cecília Chueire em algumas montagens teatrais. Quando servia o exército foi responsável pela peça ‘‘Recos Show’’, uma sátira sobre o período do serviço militar, que extrapolou os domínios da caserna e entrou em cartaz no Centro Cultural de Cornélio. O autêntico trabalho de Teatro do Oprimido recebeu condecoração do Exército em Brasília.
Chegou a receber o diploma na faculdade de Ciências Contábeis. ‘‘No meio dos balancetes pensava em teatro’’, rememora. Muitas vezes, dormia nos bancos da faculdade e era aconselhado pelos professores a sair da pequena cidade e se dedicar ao teatro. Com o incentivo, ele decidiu prestar vestibular para Artes Cênicas em Curitiba. Na prova específica, improvisou um texto mandando recado para a mãe e conquistou a comissão julgadora.
Enquanto fazia o curso de Artes Cênicas pela Fundação Teatro Guaíra e PUC do Paraná, Darson trabalhou na Divisão Técnica de Espaço Cênicos, na Fundação Teatro Guaíra, onde aprendeu todos os segredos de produção de espetáculos. Nesse período coordenou a produção do balé ‘‘A Dança da Meia Lua’’, com músicas de Edu Lobo e coreografia de Rodrigo Pederneiras. Também nos palcos paranaenses recebeu o prêmio como ator revelação com o espetáculo ‘‘Esperando Godot’’, de Samuel Beckett.
Depois de formado, se fixou na capital paulistana, quando trabalhou como diretor técnico do Teatro Municipal de São Paulo, a convite de Emílio Kalil. ‘‘Nos cinco anos de Municipal, adquiri experiência de como é trabalhar com uma companhia européia’’, diz. Dentre as grifes internacionais das artes com que trabalhou figuram Bob Wilson, Pina Baush, BSjart Ballet e American Ballet Teather. Da experiência com os grupos internacionais, Darson chegou a acompanhar a primeira turnê brasileira do Balé Kirov.
Com o texto do alemão Friedrich Watcher, na peça ‘‘Tu e Eu’’, recebeu o prêmio de melhor ator. Darson ficou conhecido como ‘salvador dos teatros’, em função dos projetos de restauração que operacionalizou, como no Teatro Glória, no Rio de Janeiro. ‘‘Viver de teatro no Brasil é difícil, mas o que me salvou foi a experiência técnica’’, ressalta. Essa vivência também abriu as portas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro no cargo de diretor operacional. ‘‘Mas não é fácil ficar no Rio. Existe ainda muito preconceito com que é de fora’’, avalia.
Mesmo distante há 17 anos de Cornélio Procópio, Darson Ribeiro articula o sonho de criar no sítio onde cresceu um Centro Cultural de Pesquisa, nos moldes daquele instituído pelo diretor polonês Jerzy Grotowsky. Pensa até numa adaptação de ‘‘Terra Vermelha’’, de Domingos Pellegrini. ‘‘Esse é o sonho da minha vida. Serei um homem mais feliz quando conseguir realizar algo nesse sentido na terra em que nasci’’, garante.

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