Nas asas da história
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de julho de 1998
Isabel Versiani Agência Folha 
ReproduçãoSantos Dumont: mágoa e suspeita sobre sexualidadeEstá em negociação no Brasil a publicação de um livro que agradará a amantes da aviação e ufanistas em geral. Com o título Man Flies - The Story of Alberto Santos Dumont, Master of the Baloon (O Homem Voa - A História de Alberto Santos Dumont, Mestre do Balão), uma biografia de Santos Dumont escrita por uma americana defende que é mesmo o brasileiro que merece ser reconhecido como o pai da aviação.
Os irmãos Wilbur e Orville Wright, dos Estados Unidos, podem até ter sido os primeiros a fazer um avião voar, em 1904, reconhece a autora, Nancy Winters. Mas o feito não foi cronometrado e parece ter sido impulsionado por uma catapulta, o que não caracterizaria um vôo autônomo. Além disso, argumenta Nancy, a divulgação dos feitos de Santos Dumont é que teria inspirado técnicos e aviadores a trabalhar para o aperfeiçoamento dos aviões.
O livro de Nancy foi publicado originalmente no Reino Unido pela editora Bloomsbury, em novembro de 1997. Sem a pretensão de contar a história da aviação, Man Flies é um relato leve e charmoso da trajetória de Santos Dumont, da infância em Minas Gerais até seu suicídio, em 1932. Tão interessante quanto as histórias contadas pela jornalista Nancy são as fotografias e desenhos que ilustram o livro.
A autora levou mais de dois anos pesquisando arquivos de bibliotecas, livrarias e clubes de aviação atrás de registros sobre Santos Dumont. O resultado é uma rica coleção de fotos, muitas inéditas. Uma das mais pitorescas mostra mostra o aviador e seu amigo Louis Cartier, o joalheiro, jantando, na casa de Santos Dumont, em cadeiras de mais de um metro e meio de altura. O aviador fazia isso um pouco por charme, mas também para se acostumar a comer nas alturas e depois não ter problemas para se alimentar dentro de seus balões.
Outra imagem mostra o aviador sentado em seu escritório, em Paris, junto a uma fotografia da cubana Aida dAcosta. Além do aviador, ela foi a única pessoa a ter pilotado um dos aviões de Santos Dumont e uma das únicas mulheres a ter seu nome associado a ele.
Em uma das passagens do livro, Nancy afirma que Santos Dumont pode ter sido gay, mas que não há nenhuma evidência definitiva sobre isso. A mensagem que eu quis deixar é que nós não temos nada a ver com isso, disse Nancy.
Mais interessante do que os detalhes sobre a sexualidade de Santos Dumont é a descrição que Nancy faz da reação, um tanto amarga, do aviador ao sucesso que os irmãos Wright começaram a fazer na Europa . Foi um tanto doloroso para mim perceber - depois de todo o meu trabalho com dirigíveis e máquinas mais pesadas que o ar - a ingratidão daqueles que há poucos anos me cobriam de elogios, escreveu Santos Dumont em uma nota, encontrada em uma gaveta depois de sua morte. A autora descreve os irmãos Wright como dois sujeitos pouco sofisticados e bastante pragmáticos. Na França, ao contrário de Santos Dumont, que era conhecido e querido, os dois quase não davam entrevistas. Em parte porque não falavam francês, mas também porque estariam interessados em manter seus projetos em segredo para patenteá-los. Estou muito curiosa para ver como o livro será recebido nos Estados Unidos, afirmou Nancy. Segundo a autora, no Brasil, está sendo acertado o lançamento da biografia pela editora DBA.
A autora também está entrando em contato com produtores, em Londres, interessados em montar um musical sobre Santos Dumont. Ela começou, ainda, a escrever um roteiro de um filme, baseado no livro. Seu sonho é vê-lo estrelado por Robert Downey Junior.


