Os pilotos Mariotto e Michel, com pára-quedas, se dirigiram ao protótipo e testaram os equipamentos da aeronave. Tudo parecia normal. O avião deu a primeira corrida pela pista, alcançando 110 quilômetros por hora, reduzindo no final do percurso. Pelo rádio, Mariotto e Michel informaram que iriam voar.
Toda a equipe ficou tensa no aeroporto do Centro Técnico Aeroespacial - CTA - em São José dos Campos. O barulho das hélices acelerou e, momentos depois, o avião Bandeirante decolava pela primeira vez, em 22 de outubro de 1968. A data marca o início do desenvolvimento da indústria nacional de aviação, que desembocaria na Embraer - Empresa Brasileira de Aeronáutica.
ReproduçãoPosteriormente, após alguns vôos, surgiu a chance de levar o Bandeirante a Brasília, para exibi-lo a membros do governo. O brigadeiro Márcio de Souza e Mello, ministro da Aeronáutica, já conhecia o projeto e desejava sua industrialização. Enquanto o presidente Costa e Silva apreciava a aeronave, surgiu o convite para um vôo rápido. O presidente concordou, deixando a segurança em pânico. Afinal, ainda era um protótipo.
O roteiro foi tranquilo da decolagem ao pouso. Após a exibição, já sem o presidente, o avião foi deslocado novamente a São José dos Campos. No caminho, a cabine de passageiros foi invadida por uma fumaça branca e fétida. O jeito foi aterrissar no aeroporto de Uberlândia. O pouso foi feito sem contato com o controle de tráfego. O problema era na bateria.
O piloto do pouso emergencial era Ozires Silva, um dos idealizadores do projeto do Bandeirante. ‘‘Em certas coisas precisa uma dose de coragem. Quando colocamos o presidente a bordo de um protótipo, eu estava vidrado para mostrar que o avião voava, e todos diziam que era loucura. Eu fiz vários vôos, até que a bateria abriu o bico perto de Uberlândia’’, comenta Silva.
Esta e outras histórias sobre o início da indústria aeronáutica brasileira no final da década de 60 são narradas no livro ‘‘A Decolagem de um Sonho - A história da criação da Embraer’’, que Ozires Silva lança hoje, às 18 horas, no Instituto de Engenharia de São Paulo.
Em 610 páginas, Ozires Silva recorda toda a trajetória que resultou no surgimento da Embraer, com um relato passional e carregado de referências pessoais. ‘‘Desde que começamos a projetar o primeiro Bandeirante eu dizia que, se desse certo, aquilo seria história. Designei uma pessoa para coletar dados para posteriormente escrever sobre o assunto. Mas fiquei meio frustrado quando voltei ao CTA e vi que os dados não estavam disponíveis, não achei nada’’, relata Silva, em entrevista realizada por telefone.
Com a falta de informações, Ozires Silva optou pela subjetividade: ‘‘Dei uma guinada, transformei o livro utilizando dados pessoais, conversei com alguns companheiros, é algo extremamente pessoal que vivi intensamente.’’
Ozires Silva foi fundador da Embraer, ex-presidente da Petrobrás e ex-ministro da Infra-Estrutura. No livro, o relato enfoca a estruturação de uma indústria nacional quando poucos acreditavam que o País pudesse fabricar e comercializar aviões. Em pleno regime militar, o projeto contou com o apoio do então ministro da Fazenda, Antonio Delfim Netto, que escreveu o prefácio.
Depois que deixou a Embraer em 1986, Ozires Silva retornou à empresa em 1991, quando passou a defender sua privatização. A proposta provocou polêmica e forte oposição, mesmo assim a Embraer foi privatizada em 1995. ‘‘Lutei muito pela privatização, numa estratégia de risco. Fui bastante combatido, mas fico satisfeito com a linha que segui, pois a situação da empresa hoje fala mais do que eu poderia descrever’’, ressalta.
O autor agora quer observar a repercussão do livro para, talvez, lançar uma outra versão. ‘‘Eu gostaria de ver a aceitação e, dependendo, tenho interesse em publicar um texto em inglês’’, explica. Outra idéia de Silva é escrever um livro em que disseca toda a tecnologia que constitui uma aeronave: ‘‘Um avião concentra grande segmento do conhecimento humano, desde as lonas até os equipamentos de bordo, e traz invenções geniais que podem ser explicadas de forma atrativa.’’ ‘‘A Decolagem de um Sonho’’ será lançado pela Lemos Editorial e distribuído nas livrarias de todo o Brasil pelo preço de R$ 35,00.

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