Ranulfo Pedreiro
De Londrina
O que leva uma pessoa a idolatrar outra? Os meandros que permeiam a relação entre fã e ídolo se multiplicam em complexidade e são decifrados em ‘‘A Experiência da Fama – Individualismo e Comunicação de Massa’’, livro de Maria Claudia Coelho, lançado pela Editora FGV, da Fundação Getúlio Vargas. Elaborada a partir da tese de doutorado da autora, a obra se aprofunda nas relações entre atores de televisão e fãs, tendo como fundo os meios de comunicação de massa e a indústria cultural.
Para abordar o tema, Maria Claudia fez entrevistas com atores de ambos os sexos – de idades variadas e níveis distintos de fama –, incluindo desde o iniciante ao consagrado. A contrapartida dos fãs foi analisada a partir de cartas recebidas pelos atores entrevistados.
Nestas relações, Maria Claudia desvenda o desejo do fã de sair do anonimato aproximando-se de alguém famoso, enquanto o ator evita o assédio para se preservar e permanecer em evidência. A autora embasa a argumentação em citações que passam por Roland Barthes, Walter Benjamin, Émile Durkheim, Umberto Eco, Claude Lévi-Strauss, Edgar Morin e Max Weber, entre outros.
A idéia surgiu quando Maria Claudia trabalhava com estudantes de teatro para sua tese de mestrado em Antropologia. ‘‘Na época havia uma tendência enorme para a carreira de ator. Nas entrevistas com os estudantes chamava a atenção como eles negavam o desejo da fama. É difícil imaginar um ator bem-sucedido que não seja famoso. Como todos querem ser bem-sucedidos na profissão, não há porque negar a fama, mesmo que esse não seja o objetivo final’’, comenta a autora em entrevista por telefone à Folha2. A partir deste trabalho, Maria Claudia definiu os rumos para o doutorado.
No contato com as cartas dos fãs, a autora percebeu, por exemplo, a frequência com que a expressão ‘‘fã número um’’ aparece nos textos. Para a autora, trata-se de um esforço inútil de singularização perante outros fãs. Pela repetição excessiva, a frase se tornou um lugar comum, afastando ainda mais o fã da singularidade.
Doutora em sociologia e professora de pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Maria Claudia busca exemplos no cinema, em obras como ‘‘O Rei da Comédia’’, ‘‘O F㠖 Obsessão Cega’’, ‘‘Nasce uma Estrela’’, ‘‘Crepúsculo dos Deuses’’ e ‘‘A Malvada’’.
Entre os autores consultados, Maria Claudia cita o filósofo e sociólogo alemão Georg Simmel, para quem o desejo de se destacar seria uma consequência da própria indústria cultural que, enquanto valoriza o apelo à individualidade, age em favor da massificação.
Um dos exemplos é a de uma atriz famosa que fazia um personagem muito popular. Era só a garota sair na rua que as pessoas apertavam sua bochecha. A atriz ficava extremamente irritada, enquanto o público se aproximava com naturalidade.
‘‘O ator tem uma existência privada, uma pública e uma terceira que é a do personagem. O fã se sente familiarizado com o personagem e fica à vontade. Isto depende da perspectiva que você tem. Você pode pegar a relação fã-ídolo e entender como um paradigma. É interessante pensar o quanto a gente pode entender, com essa relação, as situações humanas’’, acrescenta.
Com análise sóbria e aprofundada, ‘‘A Experiência da Fama’’ traduz um fragmento importante da sociedade contemporânea, jogando o holofote sobre um tema que ajuda a esclarecer as relações pessoais.
A Experiência da Fama – Individualismo e Comunicação de Massa – De Maria Claudia Coelho. Editora FGV, 148 páginas. O preço gira em torno de R$ 18,00.

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