André Bernardo
TV Press
Durante as décadas de 70 e 80, Mário Gomes foi tido como um dos grandes galãs da tevê brasileira. Não foi à toa que ele emendou diversos trabalhos na Globo, como as novelas ‘‘Jogo da Vida’’, ‘‘Guerra dos Sexos’’ e ‘‘Vereda Tropical’’. Nesta última, o ator experimentou a fase de maior sucesso da carreira. Hoje, Mário Gomes recusa enfaticamente a alcunha de galã. Para ele, o termo é pejorativo e serve apenas para designar gente bonita e burra. ‘‘Ser chamado de galã é um blefe. O que importa é ser sério e dedicado. Quero ser reconhecido pelo talento e não pela beleza’’, afirma.
Em ‘‘Vila Madalena’’, Mário Gomes exibe os mesmos olhos azuis e o jeitão desengonçado dos tempos de ‘‘Vereda Tropical’’. Aos 47 anos, Mário Gomes garante que o eterno garotão com fama de mulherengo e inconsequente cedeu lugar a um empresário maduro e responsável. Além da carreira de ator, Mário tornou-se dono de uma fábrica de jeans no Paraná.
O Donato retoma o jeitão ingênuo e atrapalhado de outros papéis como o Nando, de ‘‘Guerra dos Sexos’’, e o Luca, de ‘‘Vereda Tropical’’. Você não teme estar se repetindo?
Todo artista tende a uma repetição. Quando você vê um quadro do Picasso, logo identifica. Pela primeira vez, estabeleci um certo distanciamento. O Donato é diferente de tudo o que fiz. Ele não é a realização de um ideal. É imaturo, frágil e carente.
O que você achou do Negrão escrever o papel para você?
Eu só tenho a agradecer a ele por isso. Estou muito feliz com as possibilidades que o personagem me oferece. O Donato tem milhões de caminhos interessantíssimos a seguir. Ele é um sujeito imprevisível. Em função da carência afetiva, ele parou no tempo emocionalmente. Por isso, reage de forma infantil às agruras da vida.
Você tem sempre a tendência de interpretar tipos cômicos na tevê. Como você vê isso?
Acho ótimo. Costumo dizer que adoraria ser igual ao Peter Sellers. Se pudesse, só faria comédia. Quando tinha 19 anos, fiz uma peça chamada ‘‘O Peru’’. A minha única fala se resumia a ‘‘O senhor outra vez?’’ Pois é. Levei um mês para descobrir que aquilo era uma puta piada. Em seguida, fiz ‘‘Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajᒒ e fui ovacionado pela crítica. Nunca ouvi tanto elogio na vida. Só que, na tevê, me rotularam de galã.
Antes de fazer ‘‘Vila Madalena’’, você participou de sete episódios do ‘‘Você Decide’’. Você não achou que estava sendo mal aproveitado pela Globo?
De uns tempos para cá, virei uma espécie de astro do ‘‘Você Decide’’. Comecei fazendo aquele episódio em que a menina leva o namorado para dentro de casa e o pai torce o nariz para o sujeito. Depois, fiz um travesti e, mais recentemente, um detetive. Em seguida, interpretei um vampiro. Não foi à toa que, pela primeira vez em oito anos, a Globo escreveu uma continuação para um episódio.
Como você explica o seu inusitado sumiço da Globo após ‘‘Vereda Tropical’’?
Não explico. Eles me deram o bilhete azul e pronto. Apesar de ‘‘Vereda Tropical’’ ter registrado altos índices de audiência, fui dispensado da emissora. Nos cinco anos em que fiquei longe da Globo, só comi ovo frito. Foi uma época difícil para burro. Eu devo ter aprontado alguma e as pessoas se aproveitaram disso para que eu sumisse do mapa... Fiz análise, sofri muito, mas lutei para conseguir me entender. Ajudei a Globo a ser o que ela é. Afinal, foram 15 anos de Mário Gomes. Eu era um elemento de grande fascínio dentro da emissora.
Como você reage às críticas de que um dos motivos do seu afastamento foi a indisciplina?
Reconheço que fui indisciplinado. Não estava preparado para o sucesso que fazia. Dentro da minha maneira ingênua de ser, tinha lá os meus truques na Globo. Hoje, vejo que tudo não passava de uma grande bobagem. Na época, porém, achava que não explicar direito o que eu ia fazer na cena era uma boa. Aí, fazia coisas que não estavam previstas. Na maioria das vezes, esses truques até davam certo porque chamavam a atenção do telespectador. Mas não acho que isso tenha sido motivo suficiente.
No ano que vem, você completa 30 anos de tevê. Que avaliação você faz de sua carreira?
Hoje, olho para trás e vejo que poderia ter ganho muito dinheiro na vida. Não resta a menor dúvida. Mas não sou uma pessoa insatisfeita ou amargurada. Se não tivesse passado por tudo o que eu passei, não teria amadurecido tanto. Estou inteiraço, vivo e, principalmente, satisfeito com o meu trabalho. Tive de amadurecer na marra. Não tenho porque ficar chorando o leite derramado. Tenho mais é que viver o presente e pensar no futuro.

mockup