O processo de criação de uma novela exige muito da inspiração dos autores. Carregada de referências pessoais, a espinha dorsal das tramas, geralmente, tem ligações diretas com as vivências do escritor. Desde a literatura clássica que influenciou sua maneira de escrever até o modo como ele observa o cotidiano.
A partir da formação de um estilo próprio, pode-se observar a reutilização de algumas fórmulas, tramas e até personagens semelhantes, em trabalhos diferentes. ''Utilizo o cenário do lixão desde 'Da Cor do Pecado', minha primeira novela. Na trama, ele representa o inferno dos personagens. Além disso, gosto do resultado estético das cenas'', conta João Emanuel Carneiro, responsável pela atual novela das nove, ''Avenida Brasil'', onde um aterro sanitário ambienta um dos núcleos principais da produção.
Muitos autores são adeptos desse ''jogo'' de autorreferências. E fica difícil distinguir simples homenagens ou citações - em certos detalhes, papéis antológicos ou tramas de sucesso - de um autoplágio involuntário. ''No meu caso, funciona como uma grande brincadeira. Retomei o bordão 'êta lelê' que a Betty Faria usava em 'Tieta', na personagem Ava, da Ângela Vieira, em 'Meu Bem Querer'. O público adorou'', relembra Ricardo Linhares, sobre sua primeira novela solo, exibida em 1998.
Ricardo pertence à escola de Aguinaldo Silva - com quem trabalhou em folhetins como ''O Outro'', ''Tieta'' e ''Porto dos Milagres'', entre outros -, um dos autores que mais fazem alusão à seus trabalhos anteriores. Só na recém-terminada ''Fina Estampa'', Aguinaldo citou personagens e situações de outras quatro novelas assinadas por ele.
Caso da insana Tereza Cristina, de Christiane Torloni, que matou alguns de seus desafetos empurrando-os escada a baixo, mesmo método utilizado pela delirante Nazaré, de Renata Sorrah, a grande vilã de ''Senhora do Destino'', de 2005. A memória do público ainda foi instigada com citações a Uálber, o místico interpretado por Diogo Vilela em ''Suave Veneno'', de 1999. Assim como as frases em inglês de Íris, que mais parecia um retorno da ardilosa Altiva, de ''A Indomada'', de 1997, ambas personagens de Eva Wilma. ''O público das minhas novelas é fiel. Faço isso para deixá-los mais íntimo da história atual. Adorava a Altiva e queria muito homenagear a grande atriz que é a Eva'', explica Aguinaldo.
A memória do público e o apego dos escritores a certos personagens já fizeram com que eles reaparecessem em novelas diferentes. Entre muitas citações a trabalhos próprios e de outros autores em suas novelas, Silvio de Abreu conseguiu ressuscitar as loucuras de Dona Armênia, de Aracy Balabanian, de ''Rainha da Sucata'', de 1990, em ''Deus Nos Acuda'', exibida em 1992.
Ela ainda voltou acompanhada de suas três ''filhinhas'': Geraldo, de Marcello Novaes, Gérson, de Gérson Brenner, e Gino, de Jandir Ferrari - que na segunda novela assume-se como Gina. ''A trama acaba e alguns personagens ainda tem algo a dizer. Poderia apenas ter citado a Armênia, mas fiz questão de mostrá-la sob um outro contexto. Anos depois, fiz a mesma coisa com o Jamanta, que era de 'Torre de Babel' (1998), e voltou em 'Belíssima' (2005)'', destaca Silvio, sobre o personagem de Cacá Carvalho.
Atualmente, o autor prepara-se para revisitar e atualizar os personagens de um de seus folhetins de maior sucesso com o ''remake'' de ''Guerra dos Sexos'', de 1983, previsto para ir ao ar no segundo semestre.
Outro autor que adora criar laços entre suas novelas é Lauro César Muniz. Responsável por sucessos de temática política como ''Escalada'', de 1975, e ''O Casarão'', de 1976, Lauro homenageou essas duas tramas em ''Cidadão Brasileiro'', da Record, em 2006. ''Foi um teste para a lembrança do espectador. A partir da fusão dos nomes do protagonista de 'Escalada', Antônio Dias, e de 'Casarão', João Maciel, criei o Antônio Maciel, papel do Gabriel Braga Nunes'', admite Lauro César, que voltou ao ar esta semana com ''Máscaras''. ''Todas as minhas novelas guardam certa relação umas com as outras. Esta também vai ter boas referências'', avisa.

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