Não Tropece na Língua INFINITIVO FLEXIONADO - VOZ PASSIVA (1)
Professora, qual é o certo: medidas a serem/ser tomadas? S. B., Porto Alegre/RS
Qual o correto, já que a flexão do infinitivo tem uma regência especial: para ser contadas ou serem contadas. E os outros casos que envolvem preposição e infinitivo. Adriana Mellos, Santa Cruz do Sul/RS
Quero saber por que o verbo ser não acompanha o plural do restante da frase: ...casos desse tipo levam até vinte anos para ser decididos. Leonardo Santos Moreira, Rio de Janeiro/RJ
O uso do verbo ser como auxiliar. Exemplo: Eles estão para ser/serem exilados. Douglas N. Rothen, Curitiba/PR
O uso do infinitivo flexionado é chamado de ''idiotismo'' por ser, entre as línguas neolatinas, peculiar e exclusivo do português. Se, por um lado, a flexão (-es, -mos, -em) serve para esclarecer a pessoa do sujeito sem ser necessário mencionar explicitamente os pronomes tu, nós, eles (por exemplo, pode-se dizer ''convém irmos juntos'' em vez de ''convém nós irmos juntos''), tornando a redação mais bonita e interessante, por outro lado deixa os falantes em dúvida sobre o que é melhor ou correto.
Selecionei então algumas das muitas cartas em que leitores do Língua Brasil manifestam suas incertezas sobre o emprego da flexão do infinitivo na voz passiva. A flexão simples foi tratada na coluna Não Tropece na Língua 049, ocasião em que mostrei as duas possibilidades de uso, concluindo que só existe uma obrigatoriedade de flexão: quando o sujeito (substantivo ou pronome) do infinitivo se encontra claramente ao lado do verbo, depois da preposição, isto é, na seguinte ordem: Preposição - Sujeito - Infinitivo. Relembrando:
- Falou para as crianças saírem da sala.
- Discutiram uma forma de todos se protegerem.
- Para os problemas serem resolvidos, precisamos de mais ação.
- Dê um jeito de seus filhos estudarem juntos, falou.
- Ser autônomo é mais incômodo, a ponto de muitos de nós termos medo de ser livres.
A dúvida da maioria dos consulentes ocorre quando a frase apresenta uma ordem diferente: Sujeito - Preposição - Infinitivo. Já neste caso é facultativa a flexão, embora haja algumas recomendações e preferências, sobretudo em razão da eufonia, do que soa ou fica melhor no contexto. Mas quero reiterar que existem alternativas : não se discute se é certo ou errado. Por exemplo, não se pode afirmar que há erro em ''É preciso pensarmos no que fizemos ou deixamos de fazer para melhorarmos a vida do nosso irmão'' (frase de um senador em 1999). Todavia, o enunciado fica muito melhor assim: É preciso pensar ou Precisamos pensar no que fizemos ou deixamos de fazer para melhorar a vida do nosso irmão.
Bem, a novidade de hoje e da próxima semana em relação à coluna 049 é que vamos falar da flexão do infinitivo na voz passiva, o que implica a presença do verbo ser no infinitivo um particípio. O esquema é este: Sujeito - Preposição - Ser - Particípio.
Primeiro caso
A flexão do infinitivo passivo é preferível e preferida quando o substantivo ou o pronome que é sujeito do infinitivo vier logo na frente da preposição:
- Relacione as medidas a serem tomadas, por favor.
- O editor guardou mil histórias para serem contadas.
- As casas a serem visitadas foram apontadas pelo delegado .
- Condenamos os escritores a não serem lidos.
- Definidas as propostas e a metodologia a serem utilizadas, a equipe de Paulo Freire iniciou o trabalho.
- Encaminho-lhe os seguintes documentos para serem analisados.
- É importante zelar pela qualidade das obras a serem publicadas.
- Levar o cão ao veterinário e cuidar da sua alimentação são apenas alguns dos itens a serem observados.
Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br





