NÃO TROPECE NA LÍNGUA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Maria Tereza de Queiroz Piacentini*<br>Especial para a Folha2 
Oswaldo Onofre, de Recife/PE, solicita orientação para o dilema das iniciais maiúsculas em palavras compostas do tipo Pró-Reitoria (ou Pró-reitoria?). E Márcio S. Fontes, de Florianópolis/SC, pergunta se deve escrever Decreto-lei ou Decreto-Lei.
Como já disse outras vezes, o emprego das iniciais maiúsculas não ficou claro no Formulário Ortográfico de 1943 (oficial). Não se tratou ali (e tampouco no novo Acordo Ortográfico - 2009) das iniciais em nomes compostos. O que tem servido de guia para os gramáticos é o exemplo de Capitão-de-Mar-e-Guerra, que aparece na Observação do item 14º e que faz supor devam todos os elementos de um nome próprio iniciar com caixa-alta. Lá no 12º, porém, na exemplificação de documentos oficiais, consta: A lei de 13 de maio, o Decreto-lei nº 292, o Decreto nº 20.108 [...], ao que Celso Luft objeta em nota de rodapé no seu Grande Manual de Ortografia Globo (1985:260): Nas composições hifenizadas, os elementos gozam de independência gráfica: Decreto-Lei, com L maiúsculo.
O bom senso nos leva à seguinte orientação :
Usar todas as iniciais maiúsculas quando a palavra composta faz parte de um nome próprio, qual seja: título de obra, nome de repartição, escola, instituição, cargo ou evento, datas ou fatos históricos, como nestes exemplos:
- Marcaram entrevista com o professor doutor Ari Fonseca na Pró-Reitoria de Ensino e Pesquisa.
- A homenagem foi feita pela Organização Pan-Americana de Saúde, braço da Organização Mundial da Saúde (OMS).
- Representantes dos governos e do setor agropecuário de 11 países reúnem-se em Santiago do Chile para a 30ª Reunião da Comissão Sul-Americana de Luta Contra a Febre Aftosa.
- Foi quando Soros virou o único beneficiário daquilo que os ingleses chamaram de Quarta -Feira Negra.
- Ele dirige o Instituto Brasileiro de Análises Sócio-Econômicas, fundado em 1981 pelo sociólogo Herbert de Souza, o Betinho.
- Como periódico do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Estado de Santa Catarina, a Revista Linhas vem procurando disseminar conhecimento consist ente e socialmente relevante.
- Numa síntese sobre a história da escolarização feminina, Lelièvre observa que a Reforma e a Contra-Reforma permitiram a arrancada decisiva deste processo na França.
Quando é que se pode ver, então, a segunda palavra desses compostos em inicial minúscula? Quando não fazem parte de um nome próprio e a primeira palavra tem de ser forçosamente grafada com maiúscula, caso do início de frase:
- Couve-flor faz bem à saúde.
- Pós-graduação agora? Nem pensar.
- Quarta-feira estaremos aí.
- Sul-americanos são discriminados na fronteira.
E o decreto-lei, como é que fica? A gosto do redator: se considerar que o pessoal de 1943 cometeu um engano (entre os vários detectados) nas suas instruções, e além disso acha mais estético seguir o padrão acima explicitado, escreverá Decreto-Lei. Se entender que aí não se trata exatamente de um nome próprio, mas que o D maiúsculo é mero destaque (o que não deixa de ser um bom argumento), optará por Decreto-lei.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros Só Vírgula, Só Palavras Compostas e Língua Brasil Crase, pronomes & curiosidades www.linguabrasil.com.br.


