NÃO TROPECE NA LÍNGUA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de março de 2008
Maria Tereza de Queiroz Piacentini (*)<br> Especial Folha2 
Quando devemos escrever País com maiúscula? Graciela Karman, São Paulo/SP
O Formulário Ortográfico, quando trata das letras maiúsculas, diz que requerem inicial maiúscula ''nomes de altos conceitos religiosos, sociológicos, políticos: a Igreja (a comunidade católica), a Religião (a religião cristã), a Pátria (nossa pátria), o Estado (o nosso estado), o País (o Brasil), a República (a nossa república), o Senado, etc''.
Oficialmente, portanto, a norma é grafar País quando se faz referência ao Brasil, e país quando se trata dos demais. Contudo, há revistas e jornais que, por motivos até estéticos, eu diria, já não fazem essa distinção, usando as minúsculas em qualquer caso. É mais uma opção do que um ''pecado'' gramatical. Só recomendo cuidado de modo a se manter a coerência e a unidade dentro de um texto.
Internet
Afinal, a palavra internet deve ter a inicial maiúscula ou minúscula? E por quê? Ana Cristina da Silva, Florianópolis/SC
Pode-se usar a maiúscula por se entender a Internet (redução de internetwork, ''ligação entre redes'') como um nome próprio. Mas, a exemplo de outros nomes de marcas, tipo Xerox e Gilette, que passaram a substantivo comum, a internet pode ser grafada também com a inicial minúscula.
Oceano Pacífico
Fazemos parte da equipe de revisão da Gráfica Editora Energia em Florianópolis/SC e gostaríamos de sanar algumas dúvidas sobre o emprego ou não de iniciais maiúsculas em certos termos da Geografia. São eles: trópico de capricórnio/câncer, círculo polar ártico, hemisfério sul, linha do equador e zona intertropical. Estamos seguindo a gramática do Luft, que diz que apenas os nomes próprios que acompanham os termos geográficos devem ser grafados com maiúsculas (ex.: serra do Mar, oceano índico), entretanto os dicionários são contraditórios e as demais gramáticas não esclarecem esse tópico.
Como as normas oficiais sobre o assunto datam de 1943 e são pouco elucidativas, os critérios atuais de uso variam entre órgãos de governo, revistas, editoras, publicação. Há os que pregam o uso da inicial maiúscula nos ''nomes comuns que acompanham nomes geográficos''. Outros orientam: ''Use maiúsculas nos acidentes geográficos e sua denominação''. Assim, se optar pela primeira norma, a sua redação ficará desta maneira:
O estreito de Gibraltar possui 12 km de largura por 51 km de comprimento.
O lugar mais chuvoso é o monte Waialeale, localizado no Havaí; no oceano Pacífico. O deserto de Atacama (Chile) recebeu uma curta chuva em 1971.
Acontece que isso não funciona bem quando o acidente geográfico faz parte indissociável do nome próprio, como por exemplo Mar Morto, Mar Vermelho e Serra do Rio do Rastro, tanto que não se diz ''Estive no Morto, no Vermelho e voltei para a Rio do Rastro!'' Se você disser ''o Câncer e o Capricórnio'' ninguém saberá ao certo do que se trata. Nestes casos, a maiúscula é de rigor: o Trópico de Câncer, o Trópico de Capricórnio, o Hemisfério Sul, o Círculo Polar ártico, as Montanhas Rochosas.
Por outro lado, é comum falar ''o Atlântico, o Índico, o Saara, os Urais, o Equador'', casos em que a denominação do acidente geográfico não precisa necessariamente vir em maiúsculas (oceano, deserto, montes, linha). E escreva ''a zona intertropical'' (não é nome próprio).
É por essas razões que se torna muitas vezes difícil observar a uniformidade dentro de um texto. Mas, se optar sempre pelas maiúsculas, pode ficar até mais fácil:
Do seu jardim ele avista a Baía da Guanabara, o Oceano Atlântico... A Mata Atlântica é outra vegetação da região que também aparece nas encostas da Serra do Mar e da Serra Geral.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br.


