Tendo lido os Casos Especiais no livro ''Só Palavras Compostas - manual de consulta e auto-aprendizagem'', em que defendo a não-hifenização de diretor geral, o leitor Márcio Schiefler Fontes insiste: ''Como devo me portar em relação à questão de Procurador-Geral, Diretor-Geral etc. Uso hífen ou não?''.

- Em primeiro lugar, o hífen aí não se justifica, porque se trata de uma sequência de substantivo (diretor) e adjetivo (geral) que não formam um substantivo composto, um novo vocábulo, com novo significado. Para que se forme um substantivo composto - e consequentemente se necessite do hífen - com a sequência de substantivo + adjetivo ou adjetivo + substantivo é preciso que o adjetivo perca seu sentido literal, passando os dois termos a transmitir um novo conceito - aí então se configura uma outra palavra, a palavra composta. Servem como exemplo: cachorro-quente; mesa-redonda; onça-pintada; boa-fé.

- Quando o adjetivo não adquire novo status nem transmite idéia diferente, portanto, não há razão para usar o hífen entre ele e o substantivo. é por isso que não são hifenizados: diretor administrativo, diretor adjunto, diretor executivo, gerente econômico, gerente financeiro, auxiliar técnico, assessor especial, secretária executiva, secretário geral etc. Não é ''geral'' um simples adjetivo como adjunto, financeiro, administrativo, técnico? Neste caso, por que só os cargos que utilizam o termo geral deveriam ser hifenizados? Afinal, geral aí continua a significar ''geral'', abrangente, global, que compreende um todo.

- A última edição do ''Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa'' (1999), da Academia Brasileira de Letras, não registra diretor-geral, direção-geral e nem secretário-geral, consultor e procurador-geral. Só abre a guarda para cônsul-geral. No Dicionário Aurélio constam apenas cônsul-geral e secretário-geral.

- E como o Manual de Redação da Presidência da República, editado em 1991, chancela o uso do hífen - embora ilogicamente - ''nas palavras compostas em que o adjetivo geral é acoplado a substantivo que indica função, lugar de trabalho ou órgão'' (p. 96), o que se pode fazer é manter o hífen nos documentos oficiais quando se está tratando dos tais cargos ou órgãos cuja lei de criação tenha assim estabelecido. No mais, suprima-se o hífen: Inspetoria Geral, Secretaria Geral, ou diretora geral, consultor geral, inspetor geral etc.

- De outra parte, o hífen é de lei em compostos como diretor-presidente, diretora-superintendente, diretor-gerente, redator-chefe, secretária-chefe etc. Por quê? Porque aí temos uma formação de substantivo + substantivo. é como se fossem ''dois em um'' - tomam-se dois substantivos para formar um novo. Nessa composição pode até entrar uma preposição, pois o que importa é que dois substantivos estão se unindo para formar um terceiro substantivo. Igualmente servem como exemplo: homem-aranha, papel-moeda, edifício-garagem, pé-de-cabra, olho-de-sogra, auxílio-maternidade, decreto-lei, carta-convite, licença-prêmio, vale-refeição, carro-pipa, banana-maçã, salário-família. Mas, veja bem, escreve-se salário mínimo, sem hífen, justamente porque mínimo é adjetivo e aí não muda de significado: quer dizer que o salário é pequeno mesmo, é o menor salário.


Inicial minúscula

Sabe-se que os nomes próprios devem ser grafados com a inicial maiúscula. Entretanto, quando eles fazem parte de um substantivo composto, perdem sua marca de individualidade, sendo então escritos com a inicial minúscula, como os demais termos que formam o vocábulo. Exemplos: calcanhar-de-aquiles, maria-vai-com-as-outras, castanha-do-pará, tigre-de-bengala, camisa-de-vênus, porco-da-índia, espada-de-são-jorge, pinheiro-do-paraná, coco-da-baía, joão-de-barro, tudo isso foi um deus-nos-acuda!

* Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br.

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