NÃO TROPECE NA LÍNGUA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de junho de 2007
Maria Tereza de Queiroz Piacentini (*)<br> Especial para a Folha2 
Completando a série de artigos sobre o uso do pronome ''se'' como partícula apassivadora ou como índice de indeterminação do sujeito, vejamos um caso de verbo com o pronome ''se'' + infinitivo:
- Procura-se estudar um outro idioma.
- Busca-se domesticar a gata.
- Pretende-se alugar uma casa na praia.
- Quer-se fazer o melhor possível.
- Proíbe-se criar animais em apartamentos.
Tente-se desdobrar essas frases como se faz em Alugam-se casas = Casas são alugadas e se verá que esse desdobramento não é possível. Pode-se dizer que ''a gata busca ser domesticada''? De jeito nenhum! Isso significa que domesticar (o infinitivo) é o sujeito (domesticar busca-se = buscamos).
Nesses casos, o verbo usado pronominalmente (procura-se, pretende-se, proíbe-se) fica no singular, mesmo que o complemento do verbo no infinitivo esteja no plural: Procura-se estudar outros idiomas, busca-se domesticar os sentidos, pretende-se alugar casas na praia, quer-se fazer planos possíveis. Nessa categoria de análise se enquadram os ''verbos que indicam intenção, declaração de vontade'' (Napoleão Mendes de Almeida, Gramática Histórica da Língua Portuguesa, 1983, º 404). Outros exemplos:
- Procurou-se verificar os níveis de domínio cognitivo dos alunos.
- A partir de agora, pretende-se reivindicar todos os direitos.
- Proibiu-se, por escrito, jogar papéis no chão.
- Mais uma vez intenta-se criar codornas numa pequena área.
- Quer-se escolher os melhores.
- Finalmente se conseguiu fazer transplantes de fígado.
- Tenta-se não cometer erros de digitação.
- Desejava-se vender hortifrutigranjeiros.
Postos militares femininos
Militar de Brasília pergunta: ''Devo escrever o sargento Marta ou a sargento Marta?'' E JCAC, de Porto Velho/RO, quer saber se ''é correto dizer que o feminino de capitão é capitoa''.
Primeiramente, devo esclarecer que existem na língua portuguesa as formas femininas soldada, sargenta, coronela, capitã, generala. No entanto, as Forças Armadas preferem não adotá-las, empregando o mesmo nome do posto tanto para os homens como para as mulheres (até porque alguns ficariam estranhos, como ''a tenenta''; e outros nem feminino teriam, como major e cabo). Neste caso, a única diferenciação fica sendo o artigo:
- A soldado Carla, a sargento Marta e a coronel Maria serão promovidas.
- Parece que uma tenente foi desacatada.
- O coronel Gomes passou as instruções à capitão Marli Regina.
Essa colocação do artigo no feminino é tão mais importante quando pode ocorrer menção a nome próprio usado por ambos os sexos, como Adair, Ariel, Cleo, Darci, Enéas, Eli: a soldado Darci Lira, o soldado Darci Lira.
Fora da hierarquia militar, no caso particular de capitão, pode-se dizer que é correto - existe esse registro em alguns dicionários - falar em ''capitoa'', mas é preferível usar o feminino capitã, palavra aliás bastante em voga, pois designa também o ''chefe; a pessoa que comanda, que dirige'' ou ''atleta que representa a equipe'':
- Na nossa gincana foi atribuído um prêmio às capitãs das cinco equipes.
- Sônia, capitã da SulBrasil por muitos anos, abandonou o voleibol repentinamente.
(*) Maria Tereza de Queiroz Piacentini Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros 'Só Vírgula', 'Só Palavras Compostas' e 'Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades' - www.linguabrasil.com.br


