NÃO TROPECE NA LÍNGUA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de junho de 2006
Maria Tereza de Queiroz Piacentini*<br> Especial para a Folha2 
Nestes cinco anos de Língua Brasil tivemos algumas consultas sobre o uso dos pronomes reflexivos ME, TE, SE, NOS junto com verbos tradicionalmente pronominais como os do título. Há mesmo necessidade de usá-los? Ou seja, o correto é ''ela casou'' ou ''ela se casou''? ''Sentou-se'' ou ''sentou'' um minutinho?
Ao pesquisar em dicionários (comuns e de regência), descobre-se que há possibilidades diversas; já existe um aval para a eliminação, mesmo no nível culto, do pronome reflexivo junto com os verbos citados (salvo 'divorciar', que sempre é apresentado como pronominal: divorciar-se). Isso quer dizer que é facultativo o uso do pronome nestes casos:
Casar Jucira anunciou que vai (se) casar. Casei (-me) cedo. Li que Mara vai (se) casar com Mauro. Pedro e eu vamos (nos) casar brevemente.
Sentar Jucira preferiu sentar (-se) no sofá. Sentei (-me) e descansei um minuto. Chegamos cedo e (nos) sentamos à mesa principal.
Mudar Jucira vai mudar (-se) para outra casa. Resolvi (me) mudar para Timbó. Decidimos que (nos) mudaríamos daqui tão logo saísse a aposentadoria.
Mesmo no caso do verbo 'divorciar-se' há uma tendência por contaminação sintática, pois as construções linguísticas se cruzam, se mesclam, se interinfluenciam a suprimir o pronome, de que é prova a declaração à revista Istoé, em maio de 2005, da nossa grande escritora Lygia Fagundes Telles: ''Divorciei, casei outra vez, com o Paulo Emílio Salles Gomes''.
O cuidado que se deve ter, para que o texto seja considerado bom e agradável de ler, é com a clareza em primeiro lugar. Por exemplo, se você escreve ''finalmente resolvi mudar'', não se sabe qual o sentido: ''mudar o quê?''; portanto, se for ''deslocamento de um lugar para outro'', escreva ''finalmente resolvi me mudar''. Depois vem a sonoridade da frase muitas vezes ''nos mudamos'' soa melhor do que ''mudamos''. Isso significa que não é preciso haver uniformidade, isto é, empregar o pronome todas as vezes ou suprimi-lo sempre. Pode-se variar no caso dos verbos casar, sentar e mudar.
No mais, é recomendável usar os pronomes reflexivos sempre que a situação o exija. É melhor e mais culto falar ''ele se formou na USP'' do que ''ele formou na USP'', só para dar outro exemplo.
Ainda sobre o uso dos pronomes oblíquos (reflexivos e não-reflexivos), temos duas consultas:
- ''Aqueles dois se batem e se opõem'' está certo? Ou o correto seria ôAqueles dois se batem e opõemô? Márcio S. Fontes, Florianópolis/SC
- Se puderes me ajudar eu ficarei muito grato. Há algum erro gramatical na seguinte frase: ''Há de se saber comunicar-se''? Ivson Tiago Muller de Souza
- Quando se empregam em sequência dois verbos usados com pronome proclítico, as duas formas ou modelos são corretos: se batem e se opõem / se batem e opõem. O mais estilístico, porém, é não repetir o pronome oblíquo quando este vem anteposto ao primeiro verbo:
- Aqueles dois se batem e opõem.
- Ele se rasgava e desfazia em elogios.
- As células se expandiram e modificaram.
- Nós o vimos e saudamos com efusão.
- Não o quero nem desejo mais.
- Há de se saber comunicar!
No caso da última frase, pode-se lhe dar uma outra redação: Há de saber comunicar-se, em que o sujeito não é indeterminado, mas sim implícito (oculto): (ele) há de saber comunicar-se.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil Crase, pronomes & curiosidades' - www.linguabrasil.com.br


