Maria Tereza de Queiroz Piacentini (*)

Trata-se do verbo bastar. Fico sempre na dúvida ao conjugá-lo. ‘‘Bastam alguns minutos e a tarefa estará pronta.’’ Está correta a construção? Roberta Rangel, Rio de Janeiro/RJ

  Construção correta, sim, pois o verbo aí está no plural concordando com um sujeito plural (alguns minutos). Todo mundo sabe que o verbo concorda com seu sujeito. O problema ocorre, porém, por não nos darmos conta de que o substantivo que vem depois do verbo é seu sujeito (o núcleo), que parece um objeto direto, como no caso do verbo haver impessoal. Por exemplo, em ‘‘há perguntas sem resposta’’, o substantivo ‘perguntas’ é o objeto direto do verbo haver, que não tem sujeito. Usemos o verbo existir na mesma frase e já teremos ‘perguntas‘ como sujeito: ‘‘Existem perguntas sem resposta’’.
  Assim é que na nossa fala cotidiana se tornou comum a ocorrência de frases sem a concordância verbal exigida pela gramática normativa. Isso se dá com verbos que, ao serem usados intransitivamente (sem complemento verbal), costumam vir antes do sujeito:

- Segue em anexo os arquivos solicitados.
- Basta poucos minutos e estarei pronta.
- Falta três meses para o encerramento do curso.
- Apareceu na sua casa cinco sujeitos mal-encarados.
- Surgiu de repente vários brotos.
- Ainda persiste as dúvidas.
- Vejo que permanece no texto algumas falhas.
- Resta menos de dez reais e sobra dólares.
- Ficou só dois.

  Parece haver nesses casos uma tendência à impessoalização, justificativa que não os torna aceitáveis na linguagem culta. Observa-se também que o reconhecimento do sujeito plural é ainda menor quando ele não está imediatamente depois do verbo (pode se dar a intercalação de outros termos, em geral um adjunto adverbial).
  Com esses verbos antecipados é preciso, pois, muita atenção, principalmente com BASTAR, FALTAR e SEGUIR. Como dito, as construções acima, pela norma-padrão, não são corretas, devendo o verbo ser pluralizado quando o núcleo do sujeito está no plural:

- Seguem em anexo os arquivos solicitados.
- Bastam poucos minutos e estarei pronta.
- Faltam três meses para o encerramento do curso.
- Não faltam razões para apoiar o fechamento dos bingos.
- Apareceram na sua casa cinco sujeitos mal-encarados.
- Ainda persistem as dúvidas.
- Surgiram de repente vários brotos.
- Vejo que permanecem no texto algumas falhas.
- Restam menos de dez reais e sobram dólares.
- Ficaram só dois.

  Estando o verbo nessa situação de intransitividade, é bem menos comum o uso da ordem direta, com o sujeito encabeçando a oração: ‘‘alguns minutos bastam / três meses faltam para o encerramento / razões não faltam / só dois ficaram’’ etc., cuja vantagem seria não induzir a nenhum erro gramatical.


S.M.J.

O que significa a abreviação s.m.j. que tenho, ultimamente, encontrado quase sempre em pareceres. (‘‘Este é o nosso parecer, s.m.j.’’) Significaria ‘‘sem mais justificativas’’? Grimaldi, Florianópolis/SC
  Essas três letras são as iniciais de ‘‘salvo melhor juízo’’. Juízo no sentido de entendimento, julgamento, decisão. Também podem ser grafadas em maiúsculas: ‘‘Este é parecer que submeto a V. Exa., S.M.J.’’ Quanto ao seu uso e significado, é o seguinte: o parecerista redige aquilo que entende ser o ideal e apropriado; mas, num gesto de elegância, faz essa ressalva visando deixar a pessoa que lhe pediu o parecer à vontade para decidir de maneira contrária à apresentada.

Maria Tereza de Queiroz Piacentini é Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ‘‘Só Vírgula’’, ‘‘Só Palavras Compostas’’ e ‘‘Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades’’ - www.linguabrasil.com.br

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