Em vista de três consultas específicas, estávamos falando sobre os verbos defectivos ou defeituosos, aqueles que apresentam lacunas em algumas pessoas verbais. Nessa categoria se enquadram todos os verbos que exprimem fenômenos meteorológicos, para começo de conversa. Por exemplo, amanhecer, chover, anoitecer, garoar, gear, nevar, trovejar só se conjugam nas terceiras pessoas do singular de cada tempo e não possuem as formas imperativas. São chamados impessoais.
Há outros que podem ser considerados defectivos, os pessoais, que se apresentam sobretudo nas terceiras pessoas do singular e do plural de cada tempo, como os que exprimem fenômenos da natureza vegetal (arborescer, frutificar, murchar, verdejar, vicejar, etc.) e os verbos onomatopaicos ou imitativos de vozes animais e de ruído das coisas (balir, cacarejar, ganir, grasnar, latir, mugir, badalar, chiar, espoucar/espocar, tilintar/tlintar, etc.).
Tanto os verbos que exprimem estados atmosféricos ou vegetativos quanto os onomatopaicos admitem conjugação completa, pois eles podem ser empregados em sentido figurado (eu trovejei de raiva, amanheço pensando em ti, nós frutificamos, eles uivaram de dor) e também em outras acepções, como ''eles
badalam em todas as festas / o filme foi muito badalado''.
Alguns, entretanto, continuam defectivos, já que não têm a primeira pessoa do presente do indicativo, tais como os verbos falir, parir, balir, latir, colorir, que por conseguinte não têm o presente do subjuntivo.
Quanto ao verbo explodir, devo acrescentar que o dicionário Houaiss registra as conjugações brasileiras ''explodo, exploda'', observando que também existem ''expludo e expluda'', como falei na coluna anterior.
É melhor nos adequarmos, não? Ainda sobre o verbo adequar, temos hoje em dia uma hesitação de pronúncia e por consequência de grafia nessas formas tidas tradicionalmente por defectivas ou inexistentes.
Quando se trata de paroxítonas em ditongo decrescente, vai o acento agudo na letra E (adéquo, adéqua), além do trema para marcar o hiato no caso das terminadas em QUE: adéque, adéques, adéquem. Outras formas com trema: adequei, adequemos. Pois então, os dois exemplos que vimos na semana passada ficariam assim:
E ainda há um agravante, no caso específico dos leitores brasileiros, que é a rabugice de Saramago não permitir que se adéque sua obra ao português brasileiro.

Esperamos que todos os municípios se adéquem à nova lei.

Já quem pronuncia ''adequa'' (e digo isso porque, mesmo que você não goste de usar as formas em discussão, elas podem aparecer num texto que você esteja lendo) deveria usar o acento agudo nas formas terminadas em Ue: adeqúe, adeqúem. Ficam sem acento: adequo, adequas, adequa quando pronunciadas adeqUo, adeqUas, adeqUa.
Como o trema, embora oficial, é pouco utilizado em jornais e revistas, pelo menos o acento agudo tem que estar presente: ou adéque/adéquem, ou adeqúe/adeqúem.
De qualquer modo, um alerta: quem está se submetendo a um concurso público deve evitá-las, pois nunca se sabe o grau de tolerância da comissão que vai corrigir as provas, a qual pode aceitar ou rejeitar o Houaiss, dicionário que se propôs a registrar um uso efetivo, encontrado mesmo entre falantes cultos, assim considerados, na ciência linguística, os brasileiros da zona urbana que têm curso superior completo. Aliás, formas em discussão jamais deveriam ser objeto de provas de língua portuguesa.

- Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br

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