NÃO TROPECE NA LÍNGUA 187 Uso de vírgula em caso de verbo subentendido
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segunda-feira, 06 de outubro de 2003
Maria Tereza Piacentini 
Do leitor Francisco Leoncio Cerqueira, de São Paulo, recebi o seguinte comentário:
Tenho visto com frequência em revistas, jornais e até livros uma pontuação que me parece inadequada e me soa mal. Veja os seguintes exemplos:
n O gerente ficou mais bonzinho e o motor, mais malvado.
n A aeronave foi isolada e os passageiros, impedidos de desembarcar.
n Carro popular fica mais caro e de luxo, mais barato.
n A esquerda européia reconhece seus ancestrais e a direita, seus inimigos.
n A saída para a crise é de longo prazo e a receita, ortodoxa.
n A empreiteira implodiu o edifício e o ministério, seus opositores. [Pode-se entender que a empreiteira tinha dois opositores - o edifício e o ministério - e os implodiu.]
n O jornalista desconhece a ortografia e o dicionário, a sintaxe e a pontuação. [Pode-se entender que o jornalista desconhece quatro coisas: ortografia, dicionário, sintaxe e pontuação.]
n O Planalto fritou o ministro e o cozinheiro, frutos do mar. [sentido ambíguo]
n O prisioneiro denunciou o amigo e o empresário, seus cúmplices. [idem]
n O médico atendeu o paciente e a enfermeira, os feridos. [idem]
O que me parece é que os redatores têm receio de colocar a vírgula antes do e. [...] Outra explicação seria a de que a vírgula está substituindo o verbo, oculto por elipse. O que eu aprendi em mil novecentos e antigamente é que a vírgula pode ser usada para indicar a elipse do verbo. Mas neste caso ela não precisa ficar no lugar que seria o do verbo. Acho até mais razoável repetir o verbo, em vez de usar essa pontuação absurda. Na maioria dos casos, para corrigir essa pontuação, basta deslocar a vírgula. Em outros será necessário recorrer a ponto-e-vírgula ou ponto. Em raros outros, será melhor alterar a própria redação.
É isso aproximadamente que proponho no meu livro Só Vírgula - método fácil em vinte lições. Ou seja: há opções de redação. Reitero que não há erro em nenhuma das frases apresentadas acima; no entanto, algumas (as últimas) ficariam melhor com outra pontuação, em razão de possível ambiguidade.
Também entendo que em muitos casos basta a vírgula antes do e:
n O carro popular fica mais caro, e o de luxo mais barato.
n Os liberais ou radicais ficavam sentados à esquerda do orador, e os conservadores à direita.
n Em 25 de fevereiro de 1975 o governo convocou a V Conferência de Saúde, e em março de 1977 a VI Conferência.
Quando aparece o verbo ser, pode-se pensar até em repeti-lo:
n O Brasil reúne dois defeitos: o dinheiro é curto (30.000 reais por aluno até os 15 anos) e a distribuição dos valores é heterogênea.
Entretanto, há frases que não têm a conjunção e entre as duas orações. Aqui é preciso, então, usar o ponto-e-vírgula no lugar onde estaria o e, para separar com clareza as duas orações. Não foi o que fez a revista Istoé ao transcrever declaração do ator Murilo Rosa: A tevê confere visibilidade, o teatro, prestígio. A transcrição correta e clara seria com um ponto-e-vírgula no meio da frase: A tevê confere visibilidade; o teatro, prestígio.
Outro exemplo sem a conjunção e foi encontrado numa prece:
n (ruim) Torna-me refletido, mas não ranzinza, serviçal, mas não autoritário.
n (bom) Torna-me refletido, mas não ranzinza; serviçal, mas não autoritário.
n Maria Tereza de Queiroz Piacentini, autora dos livros Só Vírgula e Só Palavras Compostas, é diretora do Instituto Euclides da Cunha, www.linguabrasil.com.br


