NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Vírgula, crase e outras dúvidas
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de março de 2005
Maria Tereza de Queiroz Piacentini 
Está correto usar vírgula no caso abaixo: ''Nem a guerra, nem as drogas.'' Karina Lapido, Taubaté/SP
Está correto. Com a conjunção nem repetida, a vírgula é optativa. Exemplos de uso:
- Nem isso nem aquilo.
- Não vi nem um nem outro.
- Não queremos nem a guerra, nem as drogas, nem a desigualdade.
A vírgula invariavelmente substituirá o verbo no caso de sua implicitude? Tenho minhas dúvidas. As frases a seguir são todas corretas?
- Eu sou belo; ele não.
- João derrotou José. Lucas, Manoel.
A verdade dos fatos não pode ser contestada; seu contexto, sim. (ou ''seu contexto sim''?) Márcio S. Fontes, Florianópolis/SC
A vírgula não precisa obrigatoriamente tomar o lugar do verbo subentendido, isto é, quando há elipse, supressão verbal. A vírgula só é obrigatória no caso de ambiguidade, como sublinhava o gramático Celso Luft. Vamos aos exemplos indicados:
- Eu sou belo; ele não.
Frase correta. Não só a vírgula seria excessiva, dada a pequena extensão da frase (''ele, não''), como também seria desnecessária porque o verbo apareceria depois do ''não'': ele não (é). Aí não se trata exatamente de vírgula no lugar de verbo elíptico. Em vez do ponto-e-vírgula também se poderia usar o conectivo ''e'': ''Eu sou belo e ele não''.
- João derrotou José. Lucas, Manoel.
Vírgula necessária, pois sem ela entenderíamos ''Lucas Manoel'' como um nome só.
A verdade dos fatos não pode ser contestada; seu contexto, sim ou seu contexto sim.
- A vírgula antes de sim não está errada, mas tampouco é necessária.
''Minha dúvida tem a ver com o uso de já em frases como: ''Já a senadora Heloísa Helena recusa-se a apoiar Sarney.'' Ou: ''Já o líder do PSDB afirma que...'' O já aí não me parece que seja advérbio. É o quê? Nair Resende, São Paulo/SP
Já, além de advérbio, pode ser conjunção coordenativa de duas modalidades: alternativa e adversativa. Por exemplo, numa frase como ''Já chateada, já raivosa, quedou-se na rede'', é conjunção alternativa. Nos dois casos da consulta, tem sentido adversativo, como se fosse:
- Mas a senadora / No entanto, a senadora Heloísa Helena recusa-se a apoiar Sarney.
- Por outro lado, o líder do PSDB afirma que não apoiará ninguém.
Constantemente esbarramos em uma dúvida literalmente cruel em nossas redações: a teor do exposto ou ao teor...? Márcia Bittencourt, Brasília/DF
O correto é a teor de, já que o a é simples preposição, como nas locuções ''a exemplo de'' e ''a serviço de''.
Tenho visto em diversos acórdãos dos tribunais pátrios a expressão ''à toda evidência'' ora com crase, ora sem. Afinal, qual é a forma correta? Glacir, Florianópolis/ SC
O correto é sem crase: a toda evidência.
Agora pergunto-lhe: Quando mulheres fazem um abaixo-assinado o certo é: ''As abaixo-assinadas''? Valéria C. Barbosa, São Paulo/SP
Sim, Valéria, basta não haver nenhum homem na lista/reivindicação para ela ser introduzida por um ''As abaixo assinadas''. Note que não se coloca hífen neste caso - ele só vai no substantivo: ''Fizemos um abaixo-assinado''.
Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br


