Em ''No meio do caminho'', Carlos Drummond de Andrade usa várias vezes o verbo ter no lugar de haver, ou seja, ''tinha'' por ''havia''. O poema termina assim:
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Na coluna Não Tropece na Língua nº 46 citei verso de Chico Buarque corroborando fato linguístico muito comum na língua portuguesa que é o uso do verbo TER de forma impessoal, com o sentido de existir. Impessoal quer dizer que não há um sujeito com que o verbo deva fazer a concordância; por isso ele permanece na forma neutra, que é a terceira pessoa do singular.
Vejamos uma frase em que o verbo TER flexiona de acordo com seu sujeito (sublinhado):
Tinham alguns meninos chegado ao ponto de ônibus quando o acidente aconteceu.
Quem tinha chegado? A resposta será ''alguns meninos''. No entanto, o verbo ficará no singular se ''alguns meninos'' não for o sujeito da oração, mas sim o objeto direto:
Tinha alguns meninos no ponto de ônibus quando o acidente aconteceu.
Aqui, não existe resposta para ''quem tinha'', pois ninguém tinha feito nada. Não existe um sujeito. O verbo é portanto impessoal, não podendo ser flexionado. É por essa razão que não se usa o acento circunflexo no presente em condições de impessoalidade:
Tem mulheres que adoram ''rodar a baiana''.
Tem vezes que só queremos é sair do país.
Na padaria do português sempre tem pães e doces feitos na hora.
Tem mais rapazes que moças na discoteca hoje.
É evidente que o tempo do verbo pode ir além do presente, e ele é usado inclusive em tempos compostos e locuções verbais:
Tem tido muitas brigas no condomínio.
Vai ter uma feijoada lá em casa no sábado.
Com certeza teve ocasiões que os latinos se sentiram desanimados.
Tinha gente que apelava para o ridículo.
Estamos entendidos: tudo isso está certo, é válido, está muito bom. Porém... O ''porém'' da história é que nenhuma das frases acima citadas é de natureza formal. Ou é poesia, ou propaganda (em que se costuma privilegiar o coloquial) ou frase do dia-a-dia, incluindo transcrição de depoimento nos autos de um processo. Em linguagem mais cultivada, exigida nos meios acadêmicos ou oficiais, impõe-se o uso do verbo HAVER, e nos mesmos moldes, isto é, sem a flexão:
Sempre haverá os descontentes com o rumo dos acontecimentos.
Há ocasiões em que todos nos sentimos propensos ao desânimo.
Enfrentaremos com denodo todos os obstáculos que houver.

Tautologia verbal

Perguntaram-me se seria viciosa, por tautológica, a construção de sentenças como ‘‘concelebrar uma missa com os prelados’’ ou ‘‘compartilhar sua alegria com os amigos’’, nas quais o ‘‘com’’ aparece duplamente.
Chama-se tautologia a repetição das mesmas palavras ou o uso de palavras diferentes para dizer o que já foi dito. Pode ser de significado ou de forma. No primeiro caso, configura um vício de linguagem; exemplo: ‘‘Haverá simulação nos atos quando as partes os tiverem simulado’’. Já no segundo, de ‘‘forma’’, não há problema: trata-se de fenômeno lingüístico natural, de evolução regencial.
Quando se analisa a regência preposicional, dentro da regência verbal, pode-se observar um condicionamento morfossemântico entre prefixos e preposições, isto é, o prefixo da palavra regente volta sob a forma de preposição. Assim, por exemplo, de ‘‘celebrar com’’ e ‘‘partilhar com’’ tem-se a evolução para ‘‘concelebrar com’’ e ‘‘compartilhar com’’. Do mesmo modo, temos: acorrer a, compactuar com, contemporizar com, conviver com, derivar de, embarcar em. Isso ocorre também com alomorfia (variação de forma), como em ‘‘cúmplice com, incluir em, implicar em, interpor entre, peregrinar por, perpassar por’’ (cum-com / in-em / inter-entre / per-por).

* Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ‘‘Só Vírgula’’, ‘‘Só Palavras Compostas’’ e ‘‘Língua Brasil - Crase, pronomes & Curiosidades’’ - www.linguabrasil.com.br

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