NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Ter de ou ter que e vistos etc
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de dezembro de 2006
Maria Tereza de Queiroz Piacentini (*)<br> Especial para a Folha2 
''Deve-se dizer tenho 'que' ir ou tenho 'de' ir?'', muitos leitores perguntam. A resposta é: tanto faz. As duas frases abaixo, por exemplo, estão corretamente redigidas:
- Os autores tiveram que se desfazer do negócio.
- Os autores tiveram de se desfazer do negócio.
A forma original - como ensina longamente Napoleão Mendes de Almeida - é 'Ter de', no sentido de ''obrigação, necessidade'': temos de fechar o negócio agora; ele teve de sair; as crianças têm de dormir cedo. 'Ter que' seria reservado para expressar ''coisas que, algo'', como por exemplo: Tenho muito que fazer, isto é, tenho muitas coisas que fazer (por fazer). Porém houve uma evolução do ''que'' na direção da obrigatoriedade. Ao falante atual a diferença está mais na repercussão sonora e na força expressiva do que no aspecto histórico. Se ter de soa mais culto, ter que é a forma mais viva, da linguagem corrente.
Aceitando-se que as duas formas estejam corretas, o que sugiro em frases mais longas é usar o ''de'' quando já existam outros ''ques'', e usar ''que'' num contexto de muitos ''des''. Exemplos:
- É intolerável que o povo tenha de pagar o pato. (Em vez de: É intolerável que o povo tenha que pagar o pato)
- Depois de fazer as contas, temos que proceder aos pagamentos devidos. (Melhor do que: Depois de fazer as contas, temos de proceder aos pagamentos devidos)
- A necessidade de ter que lutar a fim de garantir um trabalho permeia a vida de todos.
- É vergonhoso que os pais tenham de se submeter a tantas dificuldades para ver os filhos na escola.
- No mais, deixando a gramatiquice de lado, a escolha é pessoal.
Vistos etc. - pontuação et cetera
Advogados e juízes estão sempre às voltas com o termo 'etc'. Um deles assim se manifesta: ''Em sentença judicial, substituiu-se a expressão Vistos, relatados e discutidos os! presentes autos, decido por Vistos etc. Aí temos encontrado as mais variadas pontuações.'' E arrola seis, querendo saber qual é a certa. Posso afirmar que há dois modos corretos: Vistos etc. e Vistos, etc.
- 1 observação: A vírgula antes do etc. é facultativa. O moderno é não usá-la, pois além de contribuir para a não-poluição do texto, a vírgula ali não tem muita lógica, já que ''et cetera'' (do latim et coetera), aportuguesado ''etcétera'' em Celso Luft, quer dizer ''e outras coisas, e os outros (de uma dada sequência); e assim por diante''. Contudo, o Formulário Ortográfico de 1943 emprega a pontuação antes de etc. Usa mesmo o ponto-e-vírgula quando fecha uma enumeração separada por esse sinal gráfico. Por exemplo: ''A letra H (...) se conserva no princípio de várias palavras e no fim de algumas interjeições: haver, hélice, hidrogênio, hóstia, humildade; hã!, hem?, puh!; etc.''
- 2 observação: O ponto depois de etc. é abreviativo. Quando o ponto abreviativo coincide com o ponto-final, basta um ponto (isso vale também para outras abreviações). Do mesmo modo, não há por que usar três ou quatro pontinhos: etc... etc.... Reticências depois de etc. só para marcar uma ironia, o que é caso raro.
Exemplos de uso e pontuação:
- Visitou todos os Estados (Rio, São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Goiás, etc.); - Visitamos o Rio, São Paulo, Minas, Santa Catarina etc.;
- Os ministérios da Fazenda, do Planejamento, da Saúde, de Minas e Energia, da Educação etc. foram contemplados com recursos extras no fim do ano.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros 'Só Vírgula', 'Só Palavras Compostas' e 'Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades' - www.linguabrasil.com.br


