NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Substantivos concretos e abstratos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de novembro de 2004
Maria Tereza de Queiroz Piacentini 
''Muita gente me pergunta o seguinte: calor, frio e vento são substantivos concretos ou abstratos? O que responder?'' Edmilson Sá, Arcoverde/PE
Pensando bem, é pouco relevante, para quem quer apenas desenvolver uma boa redação, saber a diferença entre substantivos concretos e abstratos, razão pela qual pouco tenho me preocupado em trazer questões sobre tais assuntos para esta coluna. Mas como exercício intelectual é interessante. E faz parte do processo de ensino-aprendizagem da língua nacional na escola. Por isso tentarei dar uma resposta ao professor Edmilson.
Certamente não foi ou não é fácil perceber a diferença entre eles, e portanto há divergência de entendimentos e de explicação nos livros de gramática.
''A distinção entre concretos e abstratos é mais filosófica do que linguística e, dentro da filosofia, muito fugidia.''(Mattoso Câmara Jr.)
Pode-se afirmar que são concretos os substantivos que se referem a seres materiais ou espirituais, reais ou fictícios: casa, cor, dente, leão, Deus, saci-pererê, fada, alma, triângulo, o amigo, o diplomata, (o) japonês, (o) brasileiro etc.
São substantivos abstratos os atributos, estados, qualidades e ações, derivados de um conceito original. Eles não existem por si sós. Não possuem forma. Digamos que não podem ser desenhados, uma vez que não transmitem uma imagem. Assim, calor e frio são abstratos, gramaticalmente falando, embora nós os sintamos de modo concreto. São também abstratos todos os substantivos que exprimem sentimentos e emoções - qualidades da alma. Você pode desenhar um homem triste, uma mulher vaidosa, mas não a tristeza ou a vaidade, por exemplo.
Revendo: vento (ou ventania) é conceito original, não é atributo (e para uma criança tem uma certa forma - ela consegue desenhá-lo, sem dúvida). É, portanto, concreto. Já calor e frio (=frieza) são atributos, da mesma forma que amor, tristeza, alegria, saudade, brancura, consolo, maciez, pobreza e admiração, todos substantivos abstratos.
Quando os alunos já conhecem bem os conceitos de verbo, adjetivo e substantivo, sua forma e função, é possível mostrar-lhes que são ABSTRATOS os substantivos derivados de duas outras classes: do adjetivo e do verbo. Pode o professor apresentar exemplos e exercícios mais ou menos assim:
- Estou sempre contente. (adjetivo) à Meu CONTENTAMENTO é enorme.
- Mirtes fica aborrecida por pouco. (adjetivo) à Seu ABORRECIMENTO é deplorável.
- O chefe se mostrou satisfeito conosco. (adjetivo) à A SATISFAÇÃO dele resultou em aumento salarial.
- Está um dia muito quente. (adjetivo) à O CALOR de hoje está insuportável.
- Admiro seu trabalho. (verbo) à Minha ADMIRAÇÃO por seu trabalho é grande.
- Quero felicitar você. (verbo) à Desejo-lhe FELICIDADES.
- Vendeu apenas quatro livros. (verbo) à Foi fraca a VENDA dos livros.
- Três pessoas caminharam até o alto da montanha. (verbo) à A CAMINHADA foi difícil.
Por outro lado, não se poderia formar verbos e adjetivos de substantivos como leão, casa, lápis, saci, ar, vento, não é mesmo? Então, é possível dizer que os substantivos que não dão nenhuma idéia de qualidade, atributo ou ação e que não são formados de nenhuma outra classe de palavras são substantivos concretos.
- Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br


