Reportando-me ainda a duas frases mencionadas pelo consulente na semana passada, lembro que os auxiliares TER e HAVER quando seguidos da preposição DE formam locuções verbais com sentidos diferentes entre si:
A) HAVER DE expressa intenção, promessa: Hei de comprar um carro 0 km. Hei de fazer a prova amanhã. Por que haveríamos de nos preocupar em agir bem se não tivéssemos algum apoio para dizer que amanhã será melhor do que hoje? O direito à diversidade haverá de tirar nossa possibilidade de exigir do outro que é diverso o mesmo que exigimos de nós próprios.
B) TER DE (ou QUE, modernamente) dá idéia de obrigatoriedade, necessidade: Lamentavelmente tenho de lhes dizer que seu crédito foi cortado. Temos que assumir o peso de decidir o que vai valer e o que não vai valer em nossa inevitável convivência humana.
II - O verbo haver também pode ser usado como IMPESSOAL, sem flexão de número-pessoa, isto é, ele permanece na 3ªpessoa do singular seja qual for o tempo e modo verbal. Neste caso, tem as significações de:
1 - existir - A ética é o reconhecimento de que somos indivíduos porque há outros indivíduos. O pior, talvez, seja não o fato de haver concentração de renda, mas o fato de que se considere isso normal, banal, inevitável.
2 - acontecer, realizar-se: Houve mais dois simpósios para discutir o tema.
3 - decorrer, ter passado (tempo): No campo filosófico o debate está aceso há vários anos. Faz tempo que não a vejo, pois há dias não vem trabalhar.
  Vale observar que neste caso 3 haver comuta com fazer, sendo opcional o uso da partícula QUE quando a expressão de tempo vem no início da oração:
No campo filosófico o debate está aceso faz vários anos. Há tempos (que) não a vejo, pois faz dias (que) não vem trabalhar.
  Ainda com relação aos itens 1 e 2, vale comentar a vacilação que ocorre, principalmente na oralidade, no uso das formas impessoais (sem concordância) nos tempos pretéritos e futuros. Há uma tendência dos falantes a pessoalizar o verbo haver como se faz com seus sinônimos. Assim, por exemplo, é possível ouvir mesmo de pessoas cultas ‘‘haviam gigantes, haverão dois simpósios’’, dada a analogia com ‘‘existiam gigantes, acontecerão dois simpósios’’. Todavia, a norma-padrão exige a não-flexão: ‘‘havia gigantes, haverá dois simpósios’’. Escrever do outro modo é incorrer em críticas, certamente.
  Em termos de análise sintática, o que se dá com existir e acontecer é que a coisa existente ou acontecida é o sujeito da oração (gigantes existiam, simpósios acontecerão), ao passo que com haver a coisa existente é o objeto direto. Sendo o verbo haver impessoal neste caso, não existe sujeito, e não havendo sujeito não há por que flexionar o verbo.
n Maria Tereza Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ‘‘Só Vírgula’’, ‘‘Só Palavras Compostas’’ e ‘‘Língua Brasil: Crase, pronomes & curiosidades’’ - www.linguabrasil.com.br

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