NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Sentimentos e diminutivos Plurais - quando de
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segunda-feira, 07 de maio de 2007
Maria Tereza de Queiroz Piacentini (*)<br> Especial para a Folha2 
Escreve Suely D'Alessandro, de Florianópolis/SC: ''Aprendi com meu professor de português, na época de preparação para o vestibular, que nunca deveríamos usar as palavras ''saudade'' e ''ciúme'' no plural. Como é bastante comum o uso do plural e não encontro bibliografia que possa me esclarecer esta dúvida, gostaria que me ajudassem''. E também Ester Venturin, de São Paulo, pergunta se há plural para sentimento.
Sentimentos e disposições de espírito têm plural, sim: saudades, ciúmes, alegrias, felicidades, desgostos. Palavras como pêsames, parabéns e felicitações, por exemplo, eram originalmente usadas no singular (Meu pêsame. Parabém! Receba nossa felicitação.) mas foram sendo substituídas pela forma plural.
Isso não quer dizer que o singular não exista e não seja usado. Com efeito, os substantivos que exprimem noções abstratas, vícios e virtudes em geral têm seu emprego no singular: ''Quanta bondade!'' ''Queremos paz e harmonia''. ''Tenho-lhe afeição''. ''Sinto muita saudade''. ''A felicidade é tudo na vida''. ''Sua alegria é contagiante''.
Contudo, é usual dizermos ''Desejo-lhe felicidades'' ou ''Que as alegrias da juventude continuem por toda a vida'', assim com a flexão numérica, exatamente pela idéia de plural, de ''momentos de alegria'' e de ''felicidade em muitas dimensões''.
Plural do substantivo diminutivo
A formação do diminutivo se faz por meio de sufixos, entre os quais (z)inho é o que tem mais vitalidade: pão - pãozinho; pá - pazinha; mãe - mãezinha; coração - coraçãozinho; pastel - pastelzinho; colher - colherinha ou colherzinha; devagar - devagarzinho ou devagarinho; igual - igualzinho e assim por diante.
O plural dos diminutivos em zinho é formado acrescentando-se zinhos ao plural do substantivo primitivo menos o S:
- pá - pás - pa(s)zinhas = pazinhas
- igual - iguais - iguai(s)zinhos = iguaizinhos
- caracol - caracóis - caracoi(s)zinhos = caracoizinhos
- carretel - carretéis - carretei(s)zinhos = carreteizinhos
- pão - pães - pãe(s)zinhos = pãezinhos
- mãe - mães - mãe(s)zinhas = mãezinhas
Contudo, com os substantivos terminados em R ou Z pode-se fugir à regra, eliminando-se o E intermediário. É mais comum falar e escrever assim:
- As colherzinhas são de plástico.
- O buquê foi feito com botões de rosa e outras florzinhas brancas.
- Instalaram uma porção de barzinhos à beira da praia.
- Que rapazinhos educados!
Essas palavras também podem ter a formação usual, naturalmente: dorzinhas ou dorezinhas; amorzinhos ou amorezinhos; mulherzinhas ou mulherezinhas.
- Quando de = durante, na ocasião de
Sandra R. Martins, de Florianópolis/SC, quer saber se é lícito usar ''O chefe pediu que todos os funcionários estivessem presentes quando da apresentação do relatório final''.
É válida a locução (dicionarizada como conjunção concessiva), embora se considere um galicismo. Os estudiosos acreditam que seja uma má adaptação do francês ''lors de'', que quer dizer ''no tempo de, quando'', e sua origem remonta ao século XVIII. Então, em vez de ''quando foi a invasão francesa'' começou-se a dizer ''quando foi da invasão francesa'' e depois, abreviadamente, ''quando da invasão francesa''.
Mesmo que os puristas possam considerá-la ''construção incorreta'', ela tem tradição na língua. O uso da preposição (junto com ''foi'') encontra-se nos clássicos: ''Aristóteles mal teria a barba russa quando foi daquele seu último namoro'' (A. Garret); ''(...) quando foi do terremoto'' (Camilo).
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades' - www.linguabrasil.com.br


