Elizabeth Daxer, de São Paulo/SP, apresenta duas frases interessantes onde aparece o duplo ''se'', que ela pergunta se é uma conjunção condicional e se ''devo usá-la apenas uma vez?''
1) Paulino Jacques também faz uma crítica a essa terminologia, advertindo que é ambígua porque não se sabe se se trata de um novo direito ou do próprio direito do trabalho.
2) Se se aplicasse ao direito do trabalho a simples divisão usual do Direito em público e privado, separar-se-ia aquilo que vive em união interna.
Já o leitor Rubens Viana, de São José dos Campos/SP, quer saber se ''é um jogo de palavras? pronome pessoal e condicional?'' e extrai um exemplo da coluna Não Tropece na Língua 091:
3) Nessas frases haveria clareza se se observasse a regra citada.
E Ronaldo Nogueira, de Fortaleza/CE, acrescenta sua dúvida: Escrever dois ''se'' junto está certo? Qual seria a melhor maneira de escrever esta frase:
4) Se se tratar da entrada, informe o responsável pelo setor de compras.
As frases acima, de 1 a 4, estão corretas, perfeitas. Em 2, 3 e 4 seria possível trocar o primeiro ''se'', que é conjunção condicional, por ''caso'', o que contudo não significa melhor estilo, mas apenas uma alternativa de redação: 2) Caso se aplicasse ao direito do trabalho a simples divisão... 3)
Haveria clareza caso se observasse a regra citada. 4) Caso se tratar da entrada, informe o responsável...
No mais, é impossível a ênclise (o pronome depois do verbo) porque a conjunção subordinativa se atrai o pronome. E atrai justamente por questões de eufonia. Vejam como soaria mal: ''Não se sabe se trata-se...'' ''Se aplicasse-se...'' ''Haveria clareza se observasse-se...''
Não é à toa que Camões, há mais de quatro séculos, escreveu estes versos: ''Se se sabe ou se se sente, não (n)a digo a toda a gente...'' - provocando intencionalmente essa sonoridade. Observem que o usual é pronunciar /se/ no 1º e /si/ no 2º, evitando-se o cacófato /se/ /se/.
Eis a explicação gramatical para o caso: O 1º se é sempre conjunção condicional. O 2º se é pronome, que pode ter três funções: 1 - partícula apassivadora: ''Se se aplicasse a divisão... (se fosse aplicada a divisão), Se se observar a regra... (se a regra for observada); 2 - indicativo de verbo pronominal: ''Não sabe se se despede agora ou não, se se casa ou se se deita e espera''; 3 - índice de indeterminação do sujeito: ''Para saber se se trata de entrada, é preciso analisar todo o material''. ''Se se trata de novo direito, saberemos.'' ''Se se ama, sente-se saudades.''
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br.

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