NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Preposição e vocabulário
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 05 de maio de 2008
Maria Tereza de Queiroz Piacentini (*)<br> Especial Folha2 
Hoje a moda é o uso da preposição ''em'', o que, acho, é feito muitas vezes erroneamente. Para confirmar ou não a minha impressão, gostaria que me informassem qual destas formas é a correta: ''E sendo / em sendo a liquidez um dos pressupostos para a execução, é imprescindível que...'' Júlio César Grimaldi, Florianópolis/SC
As duas formas são corretas. E não se trata de modismo, ao contrário. Esse ''em'' com o gerúndio é usado há alguns séculos (já no português arcaico) como alternativa quando o gerúndio exprime tempo, hipótese ou condição, ''se com o verbo subordinante se expressa o que costuma acontecer, ou uma ação futura'' (DIAS, A.E.S., Syntaxe Histórica Portuguesa. Lisboa: Liv. Clássica Ed., 1959. p. 242). É o caso de: ''Em aparecendo Isabel na praia, o sol se abria de repente'' (em aparecendo = quando aparecia). ''Em se tratando de contravenção, devemos recorrer ao Judiciário'' (em se tratando = quando se trata, como se trata). ''E (em) sendo a liquidez um dos pressupostos para a execução, é imprescindível a produção de outras provas'' (e (em) sendo = já que/ como a liquidez é um dos).
Os meios modernos de comunicação orientam seus redatores a evitar o uso do gerúndio com a preposição em, visto ser muito literária esta construção.
Tessitura ou tecitura
Palavra muito utilizada no meio acadêmico, em ensaios, dissertações e teses, tessitura/tecitura tem suscitado alguma polêmica quanto à melhor grafia quando empregada figurativamente para significar ''entrelaçamento de fatos, idéias, etc., ou a maneira de urdir, tramar, engendrar, planejar a execução de algo''. Exemplos: ''Agradeço àqueles que me permitiram, ao cruzar ou entrecruzar os seus depoimentos, construir a tecitura central desta tese''. ''O olhar sobre a tessitura do currículo é ancorado numa 'epistemologia social da escolarização', em que se procuram fatores e atores que ultrapassam a sala de aula e o interior da escola.''
A distinção gráfica consta no Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (ABL, 1999): ''tecitura s. f. fios que se cruzam com a urdidura''. ''tessitura s. f. it. disposição de notas musicais. etc.''
Também o dicionário de Laudelino Freire (1957, 5 vols.) registra os dois vocábulos: ''tecitura, s. f. Conjunto dos fios que se cruzam com a urdidura.
''tessitura, s. f. Ital. tessitura. Mús. Disposição das notas musicais, par a se acomodarem a certa voz ou a certo instrumento; conjunto das notas mais frequentes numa peça musical, constituindo a extensão média na qual está ela escrita. 2. Mús. Conjunto dos sons que melhor convêm a uma voz: 'tessitura grave, tessitura aguda'. 3. contextura, organização.''
A meu ver, é mais apropriada a grafia com ''c'' para significar ''urdidura/organização'', na medida em que se escreve tecer, tecido, tecelagem, tecelaria, tecidual, tecedura, tecedeira. Já ao falar em música é natural que se grafe tessitura, pois nesse campo a língua portuguesa incorporou os exatos termos do italiano.
O problema é que outros dicionários omitem a grafia ''tecitura'': registram apenas ''tecedura'' no sentido de urdidura, e no verbete tessitura apresentam os mesmos três significados encontrados em L. Freire.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br.


