NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Onde usar onde (2)
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de novembro de 2003
Maria Tereza Piacentini 
Como já vimos, o pronome relativo ''onde'' significa o lugar onde, o que pode ser dito igualmente como ''o lugar em que'', ou simplesmente ''em que'' quando há um antecedente explícito: o lugar em que / a ciclovia em que / a rua em que
[estamos]. Ou seja, ''onde'' pode ser substituído por ''em que'':
- A cidade onde moro é linda = A cidade em que moro é linda.
- Fomos fazer rafting e o bote em que estávamos virou.
- Há lugares no mundo em que se vive muito bem.
Todo ''onde'' equivale a ''em que'', mas nem todo ''em que'' equivale a ''onde''. Por não se darem conta disso - e talvez pela lei do menor esforço - as pessoas estão usando onde em qualquer situação, mesmo quando só é possível usar em que (ou no qual, na qual, nos quais, nas quais depois de vírgula) por uma questão de regência verbal ou nominal.
Vamos tomar como exemplo a frase ''Ambos arranjaram empregos vantajosos, onde
colocavam muitas esperanças''. O relativo onde foi usado de maneira errônea
porque, apesar de ''empregos'' ser aparentemente um lugar, a sintaxe é outra:
diz-se que ambos colocaram esperanças EM empregos, NOS empregos vantajosos que
arranjaram. E é essa preposição que deve aparecer na oração subordinada: ''Ambos arranjaram empregos vantajosos, nos quais colocavam muitas esperanças''.
Vejamos então outras frases que são consideradas erradas de acordo com a
norma-padrão (culta) e portanto não aceitas em concursos, provas e redação
oficial:
- Fez várias declarações de amor, onde fica evidente o desejo de reatar o namoro.
- Quais são as modalidades onde seu filho é campeão?
- Vamos assistir a um espetáculo bem brasileiro, onde Maitê faz um pequeno papel.
- Isso parece responder a uma construção teórica bastante curiosa, onde os
sujeitos do presente encontram um lócus historiográfico que reconhece o seu
papel.
- Vão focalizar os jovens e a família onde a doença foi detectada.
- A internet é uma grande chance de trabalhar um modelo pedagógico onde o poder constitutivo da ação do sujeito seja valorizado.
As mesmas frases, corrigidas, ficam assim:
- Fez várias declarações de amor, nas quais fica evidente o desejo de reatar o
namoro.
- Quais são as modalidades em que seu filho é campeão?
- Vamos assistir a um espetáculo bem brasileiro, no qual Maitê faz um pequeno
papel.
- Isso parece responder a uma construção teórica bastante curiosa, na qual os
sujeitos do presente encontram um lócus historiográfico que reconhece o seu
papel.
- Vão focalizar os jovens e a família em que a doença foi detectada.
- A internet é uma grande chance de trabalhar um modelo pedagógico em que o poder constitutivo da ação do sujeito seja valorizado.
Pode-se confirmar a necessidade da preposição EM (embutida em NO e NA, é claro) fazendo-se a inversão da frase: ''Fica evidente o desejo de reatar o namoro nas declarações de amor / seu filho é campeão nas modalidades / Maitê faz um pequeno papel em um espetáculo bem brasileiro / a doença foi detectada na família'' e assim por diante.
Maria Tereza de Queiroz Piacentini, autora dos livros ''Só Vírgula'' e ''Só Palavras Compostas'', é diretora do Instituto Euclides da Cunha - www.linguabrasil.com.br


