No Manual do Estado, E. Martins é categórico ao recomendar Olimpíada em vez de Olimpíadas; já Sacconi acaba com a recomendação de E. Martins, dizendo que ela foi válida em 400 a.C. O que vocês diriam? (G. C., São Paulo/SP)
  Nós do Língua Brasil somos, em princípio, a favor do que a maioria do povo brasileiro usa. E no caso já está disseminado o plural Olimpíadas para designar cada edição dos Jogos Olímpicos. Assim é que os dicionários dão como certo tanto um quanto outro termo.
  Originalmente usava-se o singular porque Olimpíada quer dizer ‘‘espaço de quatro anos’’; significa o intervalo de tempo entre um evento e outro. ‘‘Tendo em vista a noção coletiva de olimpíada, que designa o conjunto de jogos realizados em cada olimpíada da Grécia antiga, desde o ano 776 antes de Cristo, justifica-se o seu emprego no singular, tal como os coletivos dúzia e dezena’’, ensina Antônio Geraldo da Cunha no artigo ‘‘Etimologizando...’’ (Na ponta da língua, v. 2, Ed. Lucerna, RJ, 2002).
  Entretanto, perdeu-se a noção etimológica e mesmo a noção coletiva da palavra quando começaram a ser realizados os jogos modernos. Como ‘‘jogos’’ é plural, referindo-se a modalidades diversas, foi natural que se passasse a usar também o plural olimpíadas. E isso não aconteceu somente na língua portuguesa. Em francês e italiano, por exemplo, se diz modernamente olympiades e olimpiadi. ‘‘Assinale-se, ainda, que para designar o conjunto dos jogos olímpicos, o latim empregava o neutro plural olympia (no genitivo olympiorum)’’, esclarece Cunha.
  O apagamento da noção coletiva do vocábulo também ocorre com outras palavras, como o substantivo ‘‘material’’, que veremos a seguir.
A palavra material aceita plural (materiais), uma vez que já encerra uma ideia de coletivo? (A. A., Rio das Ostras/RJ)
  Em tese, o subst. material é coletivo, pois nele está embutida a ideia de um conjunto de objetos, apetrechos, instrumentos. Trata-se de utensílios, ou de mobiliário, ou de armamento (material bélico), ou de amostras para exame de laboratório. Assim, é suficiente dizer, por exemplo, ‘‘vende-se material escolar’’, em vez de ‘‘materiais escolares’’.
  Contudo, o sentimento em alguns casos é que se deve usar o plural quando se fala de mais de um conjunto de material. Na loja que vende ‘‘materiais de construção’’ passa-se a ideia de telhas, pisos, louças de banho, mais pregos, areia, tijolos – a soma de cada material constituindo materiais. Mas está absolutamente correto falar ‘‘vende-se material de construção’’, apesar da preferência nacional pelo plural neste caso específico.
  Outra situação em que se tornou praxe o uso do plural é o de Engenharia de Materiais, porquanto se faz referência a vários tipos de material: elétrico, hidráulico, mecânico etc.
  O termo material também diz respeito a ‘‘substância constituinte’’ (material flexível, material vulcanizado) e a ‘‘tudo o que pode ser retirado da terra’’ (utilizou materiais como conchas, folhas, corais). Também nessas hipóteses há uma influência da ideia de vários tipos de material – pluralidade –, que apaga a noção de coletivo da palavra original.
  Quanto a jurisprudência, também um substantivo coletivo, deve ser utilizado no singular, uma vez que por ele se entende, resumidamente falando, o conjunto de decisões dos tribunais no mesmo sentido, ou seja, uma série de julgados similares. O termo jurisprudência só seria usado no plural se significasse um determinado julgado, um acórdão, uma decisão, uma unidade enfim. Como não se trata disso, é errôneo falar em ‘‘jurisprudências’’. Pelo menos até onde se puder sustentar esse uso.

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