NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Olimpíadas, material e jurisprudência
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de dezembro de 2004
Maria Tereza de Queiroz Piacentini* 
''No Manual do Estado, E. Martins é categórico ao recomendar Olimpíada em vez de Olimpíadas ao se falar sobre o evento de 2004, por ex.; já Sacconi acaba com a recomendação de E. Martins, dizendo que ela foi válida em 400 a.C. O que vocês diriam?'' G. C., São Paulo/SP
Nós do Língua Brasil somos, em princípio, a favor do que a maioria do povo brasileiro usa. E no caso já está disseminado o plural ''Olimpíadas'' para designar cada edição dos Jogos Olímpicos. Assim é que os dicionários dão como certo tanto um quanto outro termo.
Originalmente usava-se o singular porque Olimpíada quer dizer ''espaço de quatro anos''; significa o intervalo de tempo entre um evento e outro. ''Tendo em vista a noção coletiva de olimpíada, que designa o conjunto de jogos realizados em cada olimpíada da Grécia antiga, desde o ano 776 antes de Cristo, justifica-se o seu emprego no singular, tal como os coletivos dúzia e dezena'', ensina Antônio Geraldo da Cunha no artigo 'Etimologizando...'' (Na ponta da língua, v. 2, Ed. Lucerna, RJ, 2002).
Entretanto, perdeu-se a noção etimológica e mesmo a noção coletiva da palavra quando começaram a ser realizados os jogos modernos. Como ''jogos'' é plural, referindo-se a modalidades diversas, foi natural que se passasse a usar também o plural olimpíadas.
E isso não aconteceu somente na língua portuguesa. Em francês e italiano, por exemplo, se diz modernamente ''olympiades'' e ''olimpiadi''. ''Assinale-se, ainda, que para designar o conjunto dos jogos olímpicos, o latim empregava o neutro plural olympia (no genitivo olympiorum)'', esclarece Cunha.
O apagamento da noção coletiva do vocábulo também ocorre com outras palavras, como o substantivo ''material''.
Material
''A palavra 'material' aceita plural (materiais), uma vez que já encerra uma idéia de coletivo?'' A. A., Rio das Ostras/RJ
Em tese, o substantivo material é coletivo, pois nele está embutida a idéia de um conjunto de objetos, apetrechos, instrumentos. Trata-se de utensílios, ou de mobiliário, ou de armamento (material bélico), ou de amostras para exame de laboratório. Assim, é suficiente dizer, por exemplo, ''vende-se material escolar'', em vez de ''materiais escolares''.
Contudo, o sentimento em alguns casos é que se deve usar o plural quando se fala de mais de um conjunto de material. Na loja que vende ''materiais de construção'' passa-se a idéia de telhas, pisos, louças de banho, mais pregos, areia, tijolos a soma de cada material constituindo ''materiais''. Mas está absolutamente correto falar ''vende-se material de construção'', apesar da preferência nacional pelo plural neste caso específico.
Outra situação em que se tornou praxe o uso do plural é o de Engenharia de Materiais, porquanto se faz referência a vários tipos de material: elétrico, hidráulico, mecânico etc.
O termo material também diz respeito a ''substância constituinte'' (material flexível, material vulcanizado) e a ''tudo o que pode ser retirado da terra'' (utilizou materiais como conchas, folhas, corais). Também nessas hipóteses há uma influência da idéia de vários tipos de material pluralidade , que apaga a noção de coletivo da palavra original.
Quanto a Jurisprudência, também um substantivo coletivo, deve ser utilizado no singular, uma vez que por ele se entende, resumidamente falando, o conjunto de decisões dos tribunais no mesmo sentido, ou seja, uma série de julgados similares. O termo jurisprudência só seria usado no plural se significasse um determinado julgado, um acórdão, uma decisão, uma unidade enfim. Como não se trata disso, é errôneo falar em ''jurisprudências''. Pelo menos até onde se puder sustentar esse uso.
* Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades''. www.linguabrasil.com.br


