NÃO TROPECE NA LÍNGUA - O promotor e o senhor
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de março de 2005
Maria Tereza de Queiroz Piacentini 
Qual o pronome de tratamento usado para Promotor de Justiça? Sebastião Pereira Alves, Lages/SC
Quando essa mesma pergunta me foi feita, tempos atrás, eu afirmei que se tratava o Promotor de Justiça por Vossa Senhoria, pois era essa a orientação que nos passava o Manual da Presidência da República, de 1991, ao não colocá-lo entre as autoridades distinguidas pelo pronome ''Vossa Excelência''. Todavia, a Lei nº 8.625/93 estabelece no seu artigo 41, I, que os membros do Ministério Público devem receber o mesmo tratamento jurídico e protocolar dispensado aos membros do Poder Judiciário. Sendo assim, promotores e procuradores de Justiça serão tratados por ''Vossa Excelência'' (V. Exa.).
Observo, não raramente, pessoas do sexo masculino, até mesmo idosos insurgirem-se contra a forma de tratamento através do pronome senhor. Preferem qualquer outro tratamento mais informal, sob a ressalva de que o ''senhor está no céu'', além das mais diversas justificativas. Muitas autoridades, também, não fazem questão de serem tratadas pelos pronomes de tratamento Ilustríssimo ou Excelência, dando preferência a tratamento pessoal relacionado à função que exerce, por exemplo: Juiz ''fulano de tal'', Desembargador ''fulano de tal'', Promotor ''fulano de tal''. Pergunto, quais as ocasiões e casos em que o pronome de tratamento ''senhor'' pode ser dispensado, mesmo sendo dirigido a adultos ou autoridades? V.C.T., Florianópolis/SC
De fato, o pronome de tratamento ''senhor/senhora'' é bem menos utilizado hoje do que alguns anos atrás, quando não se admitia chamar um adulto - fosse pai, mãe, tios, autoridades - de tu ou você. A propósito da antiga exigência por um tratamento mais cerimonioso, transcrevo historinha publicada pela Folha de S. Paulo em dezembro de 1999, intitulada ''Folclore janista'':
Jânio Quadros foi convidado, alguns anos após a renúncia, a dar uma palestra na Universidade Mackenzie, em São Paulo. O auditório estava lotado. Assim que entrou, o ex-presidente percebeu que o clima não seria nem um pouco favorável - foi recebido com uma vaia estrondosa pelos estudantes.
Jânio falou durante uma hora, sem se importar com as piadinhas, assobios e outras zombarias dos estudantes. Quando terminou de falar, o reitor abriu para as perguntas. Um rapaz de cabelos compridos e chinelos, sem nenhuma cerimônia, perguntou:
- Você renunciou por quê?
O auditório ficou em silêncio. Jânio ajeitou os óculos, olhou bem para o garoto e respondeu, provocando gargalhadas:
O senhor já deve ter ouvido falar em Benjamin Franklin. Ele dizia que a intimidade gera dois tipos de problemas: filhos e aborrecimentos. Como não quero ter nenhum dos dois com o senhor, dobre a sua língua ao se dirigir a um ex-presidente!
Então, o que se faz, a princípio, é tratar os idosos, as pessoas mais velhas e as de maior hierarquia por ''senhor, senhora'' até o momento em que elas próprias dispensem esse tratamento. Na dúvida, é sempre melhor ser formal.
Gostaria de saber se posso escrever ''conto consigo'' ou, apenas, ''conto contigo'', mesmo se referindo ao pronome de tratamento Vossa Excelência. S. Z., Florianópolis/SC
Você deve usar, por coerência, ''conto com Vossa Excelência''. ''Conto consigo'' seria utilizado em Portugal. Porém no Brasil consigo é pronome reflexivo, ou seja, aplicado quando o sujeito e o objeto da oração são a mesma pessoa, por ex.: ''Ele conta somente consigo mesmo para executar essa tarefa''. E ''contigo'' se refere à pessoa que tratamos por TU (ou por VOCÊ, admitindo-se a mistura de pronomes tão comum no Brasil, de que falaremos qualquer dia).
Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br


