NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Norma culta e variação linguística - III
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de agosto de 2005
Maria Tereza de Queiroz Piacentini 
Não é fácil estabelecer áreas de uso distintas para a norma culta e a norma-padrão porque muitas vezes as duas andam de mãos dadas. Por exemplo, na imprensa escrita se encontra simultaneamente o uso da norma canônica e das outras variedades linguísticas, embora o consenso seja de que os jornais e revistas de grande circulação são paradigmas da norma culta, pois produzidos por pessoas de escolarização completa, como os jornalistas, e circulam num estrato social urbano identificado como ''culto'', de camadas da população que apresentam história de letramento familiar e amplo acesso aos bens de consumo, cultura e lazer.
Falamos acima em variedades linguísticas. É inquestionável que as línguas variam, mudam, se expandem, morrem. As línguas comportam variações e mudanças no tempo, no espaço, na forma, no seu funcionamento. Encontram-se, portanto, variações geográficas (vocabulário e prosódia mudam de região para região); sociais (com as variáveis de classe, sexo, idade, grupo étnico, escolaridade e fatores individuais); de registro (formal e informal); estilísticas, semânticas, lexicais e fonológicas.
O problema do certo/errado (conceito embutido na dicotomia entre língua-padrão = correto e não-padrão = errado) parece residir na pouca compreensão de que a variação está inscrita na língua, é própria dela. Como lembra Marina Yaguello (2001), ''nunca ninguém deteve a evolução de uma língua, a não ser deixando de falá-la''. Ensina a autora que a mudança linguística é movida por duas forças distintas: uma procede da língua mesma, é inerente à sua lógica interna; a outra procede da comunidade linguística, das condições sócio-históricas em que é produzida.
A própria norma prescritiva não se põe a salvo das mudanças: ela também se deixa influir pelos empréstimos estrangeiros, pelas inovações e flutuações de uso (o verbo obedecer, por exemplo, antigamente era transitivo direto, passou a indireto e está voltando aos tempos clássicos na forma de obedecer ordens, obedecer o papai...).
''O fato de as línguas passarem por mudanças no tempo é algo que pode ser percebido de mais de uma forma. Uma delas é o contato com pessoas de outras faixas etárias. Quanto maior a diferença de idade, maior a probabilidade de encontrarmos diferenças na forma de falar de duas pessoas'', explica Paulo Chagas (In Fiorin. Introdução à lingüística. SP: Contexto, 2003).
Em seu artigo ''Norma-padrão brasileira''(2002), Faraco esclarece que a raiz do preconceito linguístico na cultura brasileira e das atitudes puristas e normativistas que vêem erros em toda parte e condenam qualquer uso - mesmo aqueles amplamente correntes na norma culta e em textos de nossos autores mais importantes - de formas que fujam ao estipulado pelos compêndios gramaticais mais conservadores está na grande distância que se colocou, desde o início, entre a norma culta e o ''padrão artificialmente forjado''.
É dentro dessa perspectiva da variação e evolução linguística - de regências verbais mutantes, ortografia e prosódia alteradas, novos significados a antigos vocábulos etc. - que Marcos Bagno diz ser preciso reconhecer que tudo o que a Gramática Tradicional chama de ''erro'' é na verdade um ''fenômeno'' que tem uma explicação científica perfeitamente demonstrável. Se milhões de pessoas (cultas inclusive) estão optando por um uso que difere da regra prescrita nas gramáticas normativas é porque há alguma regra nova sobrepondo-se à antiga. Assim, o problema está com a regra tradicional, e não com as pessoas, que são falantes nativos e perfeitamente competentes de sua língua (Preconceito linguístico: o que é, como se faz. SP: Loyola, 2003).
- Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br


