NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Mais regência verbal
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segunda-feira, 16 de junho de 2008
Maria Tereza de Queiroz Piacentini (*)<br> Especial Folha2 
Consulta: regência do verbo agradar, haja vista que tenho encontrado divergência nas gramáticas. Pedro Tenório Sousa, Maceió/AL
Divergência, neste caso, significa que há multiplicidade de uso. ''A regência, como tudo na língua, a pronúncia, a acentuação, a significação, etc., não é imutável. Cada época tem sua regência, de acordo com o sentimento do povo, o qual varia, conforme as condições novas da vida'', já dizia o filólogo e dicionarista Antenor Nascentes em 1960.
E agradar é um dos verbos que Celso Luft usa justamente para exemplificar a evolução da regência verbal pela alteração dos traços semânticos ou de significado: ''Agradar a alguém, agradar-lhe torna-se agradar alguém, agradá-lo, certamente por efeito de sinônimos como 'contentar, satisfazer', 'alegrar, deleitar', e obviamente prescinde de preposição com o traço de 'acarinhar, mimar'', de um uso popular deste verbo''.
Em resumo, pode-se usar corretamente o verbo agradar como pronominal, intransitivo, transitivo direto ou transitivo indireto, todos devidamente dicionarizados: Agradou-se da moça à primeira vista. A festa não agradou, embora o anfitrião tivesse feito tudo para agradar os convidados. A infra-estrutura das praias agradará os/aos turistas. Nada agrada aos mais exigentes.
Adquire a qualquer custo algo que lhe agrade. Quisemos agradá-lo, mas não houve jeito.
É possível a utilização do verbo conspirar no sentido de algo bom? O Aurélio estaria correto ao exemplificar que ''tudo parecia conspirar para a sua felicidade?'' É correto dizer que ''os astros conspiram a nosso favor?'' Não seria uma inversão de sentido? José Roberto, Rio de Janeiro/RJ
De ''tramar, planejar ou concorrer para uma conspiração'', o verbo conspirar passou a designar também ''concorrer para algum fim'' ou, em outros termos, ''tender ao mesmo objetivo''; enfim, ''contribuir''. O que muda é a regência: a preposição contra sempre traduz um fator negativo: Ele conspira contra qualquer iniciativa, contra nossos ideais; as preposições para, em ou a podem ser usadas em qualquer situação: Conspira para sua felicidade / conspira a seu favor / conspira em prejudicar seus interesses / conspira para obter os melhores resultados.
Gostaria que você ou gostaria de que você? Quando não se usa a preposição para atender à regência do verbo? Célia Cândido da Silva, Curitiba/PR
O verbo gostar, ninguém tem dúvida, pede a preposição de: Gosto de vocês. Gostaria de tomar água-de-coco. Entretanto, a sequência gostar de que permite deixar a preposição de fora, porque frases como ''Gostaria que você fosse pontual'' ou ''Ela gosta que a elogiem'' soam melhor do que ''Gostaria de que você fosse pontual'' ou ''Ela gosta de que a elogiem''.
Tenho dúvida, quase certeza, de que estão erradas as expressões abaixo. Por favor julguem-nas: ''O São Paulo venceu ao Palmeiras''. ''A bola passou por sobre o gol''. André Luís, São Paulo/SP
Você tem razão no primeiro caso, pois o correto é ''O São Paulo venceu o Palmeiras''. No segundo, é preciso jogo-de-cintura. Em português (embora não tanto como no inglês), também se vê uma preposição regendo outra em certos casos de ênfase ou maior definição. A preposição por exprime, entre outras coisas, idéia de percurso, e quando esse percurso se dá sobre a trave, é possível deixar isso bem claro: a bola passou por sobre o gol.
Outros exemplos de dupla preposição: Passou por entre a ramagem. Mergulham e desaparecem por sobre o imenso telheiro. Passou por detrás do galpão. O terreno lhe foge de sob os cascos. Cumpre seus deveres para com a religião.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br.


