Eis um assunto difícil, talvez impossível de abordar numa só lição. Trata-se exatamente do uso do pronome 'se' em frases como a inicial: deveria eu ter escrito ''impossível de se abordar''? Não necessariamente. Para confirmar, vejamos alguns casos específicos do emprego do infinitivo sem o pronome 'se' para indicar impessoalidade.
Não se usa o pronome 'se' com o infinitivo de orações substantivas (sublinhadas abaixo), das quais a mais comum é a oração subjetiva (funciona como sujeito do verbo ser e de outros verbos como convir e caber):
q É bom viver nesta cidade. (e não: viver-se)
q Não é possível duvidar do rapaz. (e não: duvidar-se)
q As mesmas roupas permitem chegar a um visual novo e bonito, bastando acrescentar acessórios diferentes. (e não: se chegar/se acrescentar)
q Era importante manter negociações com os países fronteiriços.
q Convém fazer a escalada devagar.
q Não havia como suspeitar da moça, sempre tão solícita...
Na estrutura 'ser de + infinitivo', o 'se' - embora comum - não precisa ser usado:
q Era de ver a confusão no parque! É de ver e rever!
q É de esperar que os melhores candidatos sejam aprovados.
q Não havia lei que regulamentasse as temporadas de caça ou a captura de animais com armadilhas, de modo que não era de espantar que a maioria dos colonos praticasse a caça livremente.
Não se usa o pronome 'se' quando o infinitivo complementa um adjetivo e tem sentido limitativo ou passivo (por isso às vezes chamado de ''infinitivo passivo''):
q É uma cidade boa de viver. (de alguém viver, de a gente viver)
q Tal sujeito é osso duro de roer! (de ser roído)
q No estande da feira havia livros baratos e bons de ler.
q Algumas poesias são fáceis de decorar, outras não.
q Só encontrei no site exercícios difíceis de fazer.
O infinitivo fica invariável quando funciona como complemento nominal de um substantivo:
q Já era hora de investigar o assunto. (e não: de investigar-se)
q O processo de dividir as cotas foi rápido.
q Encontrou-se muita dificuldade em obter a cura.
q O hábito de beber álcool é nocivo à saúde.
q Há várias maneiras de fazer planilhas.
Observo que em alguns desses casos será possível flexionar o infinitivo se for preciso deixar claro que o sujeito é 'nós', perdendo o infinitivo a sua impessoalidade: Já era hora de investigarmos o assunto. O processo de dividirmos as cotas foi rápido. Mas normalmente o contexto onde se acha a frase já deixa isso evidente, tornando desnecessária a flexão.
Alguns ainda poderão objetar dizendo que usam o 'se' porque tal construção corresponde à voz passiva sintética. A ver: hora de ser investigado o assunto; dificuldade de ser obtida a cura, maneiras de ser feita uma planilha... Se assim for, é conveniente anotar que no plural, no rigor da gramática, deve-se fazer a concordância verbal: Há várias maneiras de se fazerem planilhas.
Por fim, embora o assunto não se esgote por aqui, lembro que é bom analisar a construção sintática antes de excluir o pronome 'se', pois pode se tratar realmente de voz passiva, a demonstrar impessoalidade, como neste exemplo:
q Durante a Segunda Guerra Mundial, com a proibição de se falar o idioma alemão, a Irmã Cácia foi substituída por uma brasileira.
Se se dissesse apenas ''de falar o idioma alemão'', a proibição pesaria somente sobre a Irmã Cácia; mas não é o caso, pois nesse período da guerra decretou-se que ninguém podia falar alemão no Brasil.

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