É impossível ver todos os tipos de emprego numa só coluna, Rosemary. Mas há duas semanas tivemos a oportunidade de analisar e estudar um caso, aquele em que o gerúndio precedido de vírgula dá idéia de adição em substituição ao conectivo ''e''. Repito um exemplo: Ligou para o celular de D. Marisa, no sábado, lamentando o sequestro. No domingo voltou a falar com Lula, marcando uma conversa pessoal. Isso equivaleria a dizer: ''Ligou para o celular de D. Marisa, no sábado, e lamentou o sequestro. No domingo voltou a falar com Lula e marcou uma conversa pessoal''.


Vejamos agora o uso do gerúndio sozinho (sem verbo auxiliar) numa situação de oração reduzida adverbial de modo depois da oração principal. Neste caso específico, quando o gerúndio denota MEIO, MODO ou INSTRUMENTO respondendo, portanto, à pergunta COMO? , não se usa a vírgula, pois aqui se trata de uma oração subordinada na sua ordem normal, que é depois da principal. (É importante observar que no parágrafo anterior se fala de gerúndio que une orações coordenadas.) Eis alguns exemplos de orações reduzidas modais de gerúndio (sem a vírgula, portanto):


- O presidente subiu a rampa correndo.
- A cigarra passou a vida cantando.
- Mandou pintar o edifício empregando mão-de-obra local.
- Dewey já comentava a importância de ''aprender fazendo''.
- A criança constrói sua cultura brincando.
- Finda a sessão, a ré saiu chorando da sala.
- Esse fato contribui ainda mais para afastá-lo da sua missão de eliminar conflitos realizando a justiça.

- O Direito deve retomar o seu papel de instrumento de ordenação respondendo às convenções morais.
- Em 1831 um empresário decidiu minorar a falta de transportes públicos de Nova York encomendando um veículo para 12 pessoas a um fabricante de carruagens.



Em Portugal, é bom que se diga, o gerúndio é desprezado nesse tipo de frase. Lá se costuma empregar a oração reduzida de infinitivo, que nós brasileiros também usamos: Subiu a rampa a correr; passou a vida a cantar; a criança constrói sua cultura a brincar, saiu da sala a chorar e assim por diante.


Podemos afirmar também que a ausência da vírgula diante do gerúndio (ou oração gerundial) é a regra em qualquer tipo de oração adverbial na sua ordem habitual, isto é, depois da oração principal, não anteposta nem intercalada. Constata-se esse uso mais frequentemente quando o gerúndio equivale a uma oração adverbial final, ou seja, aquela que exprime uma finalidade, (poderíamos dizer que responde à pergunta PARA QUÊ?):


- Telefonou para sua mulher dizendo que ia jantar fora.

- O BC emitiu nota oficial desmentindo os boatos especulativos a respeito dos juros.

- Ele renunciou objetivando facilitar as investigações.

- A imobiliária deve enviar e-mail ao locador avisando-o de que fez despesas em seu favor.

Tem mais. Proximamente abordaremos o gerúndio equivalente a uma oração adjetiva restritiva, igualmente sem vírgula.



* Maria Tereza de Queiroz Piacentini, autora dos livros ''Só Vírgula'' e ''Só Palavras Compostas'', é diretora do Instituto Euclides da Cunha - www.linguabrasil.com.br

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