NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Fórmulas de modéstia e majestade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 31 de julho de 2006
Maria Tereza de Queiroz Piacentini *<br> Especial para a Folha2 
De Campo Grande/MS escreve o leitor O. M. de Araújo para perguntar o que é plural majestático.
Em duas palavras, é o emprego da 1 pessoa do plural no lugar da 1 pessoa do singular. Significa dizer ''(Nós) queremos manifestar nossa satisfação'' em vez de ''(Eu) quero manifestar minha satisfação''.
Os antigos reis de Portugal adotaram a fórmula ''Nós, el-rei, fazemos saber...'' procurando, num estilo de modéstia, diminuir a distância que os separava do povo. Até que no início do séc. XVI, com D. João III, aparece o absolutismo real e a consequente mudança da fórmula para a 1 pessoa: ''Eu, el-rei, faço saber que...'' Entretanto os altos prelados da Igreja continuavam a usar o pronome 'Nós' como um tratamento de humildade e solidariedade com os fiéis. Só que, crescendo a Igreja em poder e bens temporais, aquele plural começou a dar a impressão não de modéstia mas sim de grandeza e majestade. Daí o nome ''plural majestático''.
Sua outra denominação é ''plural de modéstia''. Ainda o utilizam escritores, oradores e políticos, que dessa forma pretendem fundir-se em simpatia com seus leitores, ouvintes e correligionários, parecendo com eles compartilhar suas idéias e afastando qualquer noção de importância pessoal, vaidade e orgulho.
Mas veja bem: não é necessário que numa correspondência formal ou num discurso o redator tenha de usar a 1 pessoa do plural para ''não ficar mal''. De modo algum. Desde que ele esteja falando em seu próprio nome e não no de uma coletividade ou da empresa como um todo, é natural que se expresse na primeira pessoa do singular:
- Venho transmitir-lhe meus cumprimentos...
- Solicito a colaboração de todos...
- Recebam os meus agradecimentos...
- Tenho a certeza do seu empenho...
- Minha intenção é dar o melhor de mim pela comunidade...
Quando, porém, prefere usar o plural majestático, o redator deve saber que verbos e pronomes vão para o plural, mas os adjetivos permanecem no singular, flexionando de acordo com a pessoa que fala ou a quem se referem. Por exemplo:
- Sejamos claro e sucinto (falou o doutor).
- O mestre agradeceu dizendo: ''Nós nos sentimos orgulhoso com esta homenagem''.
- Não pretendemos ser vaidoso, acreditem.
Estamos imunizada contra os ataques solertes da oposição bradou a deputada.
Claro que quando o redator quer se referir também à coletividade, à instituição junto, deve empregar todos os termos (verbos, pronomes e adjetivos) no plural:
- Nós nos sentimos felizes com a lembrança do nosso nome...
- Não seremos responsáveis pelas atitudes dos concorrentes.
- Estamos cientes do ocorrido em nossas instalações.
- Sejamos pacientes e peçamos a Deus pelo melhor para o Brasil.
Ainda é possível, dentro de um mesmo discurso, ofício, tese, parecer etc., mesclar parágrafos de 1 pessoa do singular com outros de 1 pessoa do plural, dependendo da situação ou da realidade a ser destacada (pessoal ou institucional).
Multi
O prefixo Multi está arrolado entre aqueles que se ligam diretamente ao substantivo ou adjetivo, isto é, sem hífen e sem deixar espaço. Porém é preciso estar atento a um detalhe: para não desfigurar a pronúncia, dobra-se o S ou o R dos radicais iniciados com essas letras, por exemplo: multi + setorial = multissetorial; multi + secular = multissecular; multi + racial = multirracial. Outros exemplos:
- Foi elogiado o multiatendimento dispensado aos participantes da Feira.
- Eles prestam serviços a várias empresas simultaneamente utilizando o sistema de multiusuário.
- Cem voluntários serão investigados por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores.
- Multiempresas montaram uma ousada multiestrutura para atrair os turistas do Norte.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' www.linguabrasil.com.br


