NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Deletar, protocolar e outros verbos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de outubro de 2006
Maria Tereza de Queiroz Piacentini (*)<br> Especial para a Folha2 
Jocélia Borges, de São Paulo, quer saber qual o correto e qual a diferença entre protocolar e protocolizar. E Sandra Regina Martins, de Florianópolis, pergunta sobre ''alguns verbos de cunho técnico e que não constam no dicionário, tipo disponibilizar, itemizar, customizar e outros do gênero. Às vezes preciso utilizar algum desses verbos e não sei se devo''.
Digamos que você pode, Sandra. ''Tudo o que se vê tem um nome'' (PVOLP, 1999, p. XXII) e tudo o que se faz também é denominado. Se o ser humano cria objetos, inventa instrumentos e descobre novos afazeres, precisa dar-lhes nomes, que vão sendo incorporados à língua.
A questão é que normalmente na área técnica e científica eles têm vindo do inglês, e aí deveriam pelo menos sofrer uma nacionalização na ortografia. Por que escrever ''ticket'' ou ''copydesk'' se podemos escrever tíquete e copidesque? Ou ''linkar'' no lugar de lincar? Na verdade, por que lincar se temos ligar? Por que deletar e não apagar?
A resposta pode ser dada pelo presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Arnaldo Niskier: ''O certo é que a língua portuguesa cresceu, até mesmo em virtude da introjeção de termos ligados ao desenvolvimento científico e tecnológico e de muitos estrangeirismos.(...) Não há como conter esse crescimento, mesmo que, por vezes, seja ele fruto de (...) um lamentável 'linguicídio', palavra que, aliás, consta do nosso Vocabulário''. Refere-se ele ao Pequeno Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (PVOLP), organizado pela ABL, cuja edição de 1999 registra a grafia correta e a classe gramatical de 350 mil verbetes. Nele já constam vocábulos como lincar e deletar.
Outro fator que responderia a essa fácil adesão ao estrangeirismo - mesmo nacionalizado - é ''a lei do menor esforço''. Consta que o escritor português José Saramago, numa visita ao Brasil, indignou-se ao escutar no saguão do hotel: ''Vamos checar''. O Nobel de Literatura não se conteve: ''Ora, pois, não se pode mais verificar, averiguar''? O caso é que checar (aportuguesamento do inglês to check) é muito mais fácil de dizer e escrever do que seus sinônimos em português.
Enfim, a língua é mais dinâmica do que os dicionários. Na sua 1 edição, por exemplo, o Aurélio não consignava o verbo alocar, termo cuja autenticidade hoje ninguém discute. O Aurélio Século XXI ainda não traz os verbos mencionados pela leitora Sandra, mas certamente vai incorporá-los numa nova edição se continuarem a ser usados com frequência. Ocorre que muitas palavras são criadas por uma necessidade imediata mas não ''pegam'', morrem na praia, como foi o caso de ''imexível''. Portanto, agilizar, oportunizar, otimizar, customizar, disponibilizar, acessar, deletar, itemizar já estão legitimados... pelo uso.
Protocolar e protocolizar
Ambas as formas - dicionarizadas - têm o sentido de ''registrar no protocolo''. Protocolar é uma simplificação brasileira do verbo original protocolizar, formado pelo adjetivo protocolar + o sufixo izar, que indica ação. Para fugir de possível confusão entre o adjetivo protocolar (''FHC teve com ACM uma conversa curta e protocolar'', por exemplo) e o verbo protocolar, um amigo meu sai pela tangente ao empregar ''protocolizar'' quando usa o infinitivo, utilizando a forma mais rápida e simples nos outros casos:
- Favor protocolizar todos os ofícios, solicitou ela.
- Afirmou o juiz que o recurso foi protocolado fora do prazo
- O partido protocolou no Senado denúncia de que o deputado estaria envolvido em muitas irregularidades
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini - Diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br


