NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Crase e artigo com possessivos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Maria Tereza de Queiroz Piacentini (*)<br> Especial Folha2 
Gostaria de saber sobre o uso de crase antes de pronomes possessivos. É permitido? Existe alguma regra? W. Castro, Rio de Janeiro/RJ
A minha mãe (para minha mãe) tem crase? Sibele Akselrad, São Paulo/SP
Sabemos que a crase está condicionada ao uso simultâneo da preposição a com o artigo a; portanto, para ocorrer a crase é preciso que a palavra anterior (um verbo ou um nome) exija a preposição a e o substantivo posterior - que será obrigatoriamente feminino, explícito ou não - admita a presença do artigo definido. Sibele coloca entre parênteses ''para minha mãe'', sem o artigo antes do possessivo. Consequentemente, se trocarmos a preposição para por a, não aparecerá o acento: Disse a minha mãe que voltaria cedo.
Entretanto, outros leitores traduziriam esse ''a minha mãe'' por ''para a minha mãe'', o que pressupõe a coexistência da preposição com o artigo definido. Neste caso, escreve-se com o acento indicativo de crase: Disse à minha mãe que voltaria cedo.
Conclusão sabida e regra repetida: o uso da crase antes do pronome possessivo é facultativo. Quer dizer, pode-se omitir o acento que não fica errado. Mas é altamente recomendável usá-lo, pois evita ambiguidades, sobretudo depois de verbos, vejam só:
Favor anexar a sua declaração de isento a sua identidade. Anexar o que a quê? Deixemos claro: Favor anexar à sua declaração de isento a sua identidade. Favor anexar a sua declaração de isento à sua identidade. Favor anexar a sua identidade à sua petição. Anexamos à petição o documento solicitado. Peço que junte à nota para a imprensa a sua fotografia.
A crase, aliás, é sempre motivo de clareza. Também fica melhor: à sua escolha (título de reportagem sobre imóveis à venda). O Natal bate à sua porta (propaganda na TV sem o acento!). Dobre à sua direita.
A bem da verdade, esse tipo de crase só deveria ser dito ''facultativo'' em relação às regiões do Brasil, já que em alguns Estados não se usa o artigo definido diante do possessivo. Ali as pessoas normalmente dizem: ''de minha mãe, de meu pai, minha amiga, para/a minhas tias'', o que em tese as desobrigaria do ''a craseado''. Já em outros lugares o artigo definido é usual: ''da minha mãe, do meu pai, com a minha amiga, para as minhas tias''. Esta situação enseja o emprego de à/às: Refiro-me à minha amiga e às minhas tias, por exemplo, em vez de a minha amiga e a minhas tias.
Em Portugal a crase (que é chamada simplesmente de acento grave) com os pronomes possessivos é de lei, pois o uso do artigo definido diante deles é a norma naquele país. Numa biblioteca pública de Porto, em agosto de 2001, li num manual de gramática que era ''mania de brasileiro'' a dispensa do artigo na frente dos possessivos! No Brasil, de fato, tanto faz.
Plural
É preciso ter cuidado com a opção diante de pronome possessivo plural: a alternativa não é as/às, mas sim a/às, pois aí se trata de escolher entre a simples preposição (entendendo-se que não se queira usar o artigo definido antes do possessivo) ou a preposição combinada com o artigo no plural:
Não reconheceu o Estado de Israel por questões políticas ligadas a/às suas relações com os países árabes.
É interessante manter a coerência dentro do texto ou pelo menos dentro da frase: Passo a suas mãos documento que já é de seu conhecimento. Passo às suas mãos documento que já é do seu conhecimento. Na casa de minha irmã, eu me referi a minhas dificuldades. Na casa da minha irmã, eu me referi às minhas dificuldades.
* Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil - Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br.


