''Há algum tempo tenho inquietações para com o verbo adequar. No Aurélio Eletrônico, a conjugação do presente do indicativo (1, 2, 3 e 6 pessoas) inexiste. Nele, também não há conjugação do presente do subjuntivo. Já no Houaiss, as conjugações acima consignadas são feitas. Diante dessa dissonância, gostaria de saber se a conjugação do Houaiss é aceita pela forma culta da língua portuguesa. Em caso positivo, por que o Aurélio não passou a registrá-la em suas recentes atualizações? Qual é, afinal, a referência mais conveniente a ser usada, já que se trata de duas sumidades no assunto?B., São Paulo/SP
Estou estudando para concursos públicos e deparei-me com uma dúvida. Diz respeito ao verbo computar. Seria (ainda) este verbo defectivo?Adriana Coelho, Rio de Janeiro/RJ
Como se conjuga a primeira pessoa do verbo colorir? Me disseram que é eu 'coluro', mas achei esquisito demais.Valéria, Frutal/MG
Verbo defectivo é aquele que tem ''defeitos'', falhas na conjugação. Ou seja, sua conjugação não é completa. Isso acontece principalmente na primeira pessoa do presente ninguém diz, por exemplo, ''eu falo'' e ''paro'' referindo-se aos verbos falir e parir. Ou: eu não ''fedo''(feder), eu ''abulo'' ou '' abolo'' (abolir). Nem se diz ''coluro'' ou ''coloro'', mas se usa alguma locução: dou colorido, dou cores, faço um colorido etc. São formas inexistentes mesmo, e vamos seguindo sem elas. Entretanto, algumas dessas faltas se devem a uma questão mais propriamente estética do que técnica. É o caso de computar, explodir e adequar.
EXPLODIR não é verbo defectivo em si. Ele é conjugado conforme o verbo dormir, segundo dicionários especializados; portanto, pode-se dizer ''ele explode, eu expludo, ele que expluda o balão''. Já vi expludo em livros editados em Portugal, numa boa. Aqui, depois que o ex-presidente Figueiredo falou (corretamente) ''expludo'', criou-se o estigma e a má reputação do verbo, como se ele devesse ter explodido de outra forma: ''Ele que se exploda!''
COMPUTAR não é tampouco verbo defectivo. Existem e são usadas formas como ''eu computo, ele computa os dados diariamente; computa isso para mim?'' Não falar ''computa'' seria talvez uma opção pessoal por causa da sonoridade indigesta para alguns. O dicionário Aurélio não traz o presente ''computo, computas, computa'', como faz o Houaiss, que registra todas as formas. Mas devemos lembrar que as palavras existem não porque os dicionários querem que elas existam. É o contrário: os dicionários devem espelhar o vocabulário existente.
ADEQUAR é cada vez mais usado nas pessoas do singular e na terceira do plural do presente do indicativo e mesmo no subjuntivo, a despeito de toda a recomendação em sentido contrário. A população faz a língua leis neste caso são inócuas, a não ser para a ortografia. Trouxe, para exemplificar, duas frases recentemente publicadas:
E ainda há um agravante, no caso específico dos leitores brasileiros, que é a rabugice de ele (Saramago) não permitir que se adeque sua obra ao português brasileiro.(revista Istoé)
Esperamos que todos os municípios se adequem à nova lei. (jornal)
Nem sempre substituir ''adequar'' por ''adaptar'' resolve a pendenga, pois o segundo verbo tem nuances diferentes do primeiro, e às vezes o redator precisa usar os dois termos no mesmo texto até para evitar repetições. Então resta a dúvida: qual a pronúncia quando o uso é inevitável? A melhor pronúncia é aquela que tem o acento tônico no E, e que neste caso levaria acento agudo, conforme estabelecem as regras ortográficas:
Infelizmente eu não me adéquo a estas circunstâncias.
Diz o instrutor que o menino, ainda que tenha boa vontade, não se adéqua a nada.
Pessoas flexíveis e maduras se adéquam facilmente às novas situações.
Finalizaremos na próxima semana.
Maria Tereza de Queiroz Piacentini é diretora do Instituto Euclides da Cunha e autora dos livros ''Só Vírgula'', ''Só Palavras Compostas'' e ''Língua Brasil Crase, pronomes & curiosidades'' - www.linguabrasil.com.br

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