Maria Tereza Piacentini
  ‘‘Os manuais de redação afirmam que não se pode iniciar oração com ‘porém’. Por quê?’’ Solange Loos, Curitiba/PR
  ‘‘Nunca se usa ‘porém’ em início de parágrafo? Todas as gramáticas condenam tal uso ou há alguma brecha para usá-lo?’’N. N. R., Brasília/DF
  Temos aqui duas questões: o uso de ‘‘porém’’ no início da oração e do parágrafo. Não há jornal ou revista que não contenha pelo menos uma frase ou oração iniciada pela conjunção adversativa ‘‘porém’’. Isso faz parte da nossa escrita, sempre fez. Dois exemplos: ‘‘O lançamento dessa medicação é um avanço, porém a reportagem não comentou o seu preço. / Vence quem ganha mais e cede menos. Porém, ceder é preciso’’.
  Assim, não vejo razão para uma afirmação deste tipo: ‘‘Porém: Não inicia oração e, por isso, deve aparecer no interior dela’’. Pode-se até dizer que essa conjunção fica elegante, talvez requintada, quando aparece no meio da oração (‘‘Ceder, porém, é preciso’’), mas não que essa deva ser a regra.
  E já que se trata mais de estilo do que de erro, deixo que Gladstone Chaves de Melo tome a palavra. O conhecido professor mineiro-carioca, doutor em língua portuguesa e autor de mais de 30 obras, em seu livro ‘‘Iniciação à Filologia Portuguesa’’, faz as seguintes ponderações no capítulo ‘‘Como se deve estudar a língua’’ [1957:353]: ‘Todo o ensino da língua deve consistir em apurar o sentimento da linguagem. Mostrar o que está certo, chamar a atenção para o que está bem [...] Aprimorar o gosto, despertar e fomentar o senso de distinção, exercitar a plasticidade da inteligência, para fazer compreender que para cada uso linguístico há uma linguagem especial, de tal modo que não é possível estabelecer esquemas rígidos, grosseiramente aplicáveis a todos os casos [...].
  Se alguém traz no bolso do colete a regra seca de que não se começa a frase por pronome oblíquo, como poderá apreciar a beleza daqueles versos do Evangelho nas Selvas, de Fagundes Varela, quando Anchieta encontra uma índia cismarenta, lhe dirige a pergunta: ‘O que fazias, filha’?, e ouve como resposta: ‘Me lembrava dessa criança’? [...]
  Se alguém levou a sério a lição veiculada por Cândido de Figueiredo de que ‘não é bom português’ a colocação de ‘‘porém’’ no início de frase
n não obstante as centenas de exemplos em contrário, desde os mais antigos até os mais modernos textos
n se alguém levou a sério a cerebrina teoria, não poderá saborear devidamente a beleza desta construção de ‘‘A cruz mutilada’’, de Herculano: ‘Porém, quando mais te amo...’
  Quanto à segunda questão, de fato não convém iniciar parágrafo com ‘‘porém, mas e senão’’, que são as adversativas por excelência. Se essas três conjunções têm valor adversativo, isto é, exprimem a incompatibilidade das idéias envolvidas, elas devem estar ligadas de imediato ao enunciado anterior, dando pois sequência à afirmação principal ou tópico frasal do parágrafo, embora com idéia de oposição, contrariedade.
  As outras assim chamadas conjunções adversativas [portanto, entretanto, contudo, todavia, não obstante] são na verdade ‘‘advérbios que estabelecem relações inter-oracionais ou intertextuais’’ (Bechara, Moderna Gramática Portuguesa), podendo por isso dar início a um novo parágrafo, ao contrário de ‘‘mas e porém’’.

mockup