NÃO TROPECE NA LÍNGUA - Como usar ''Porém''
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de setembro de 2003
Maria Tereza Piacentini 
Maria Tereza Piacentini
Os manuais de redação afirmam que não se pode iniciar oração com porém. Por quê? Solange Loos, Curitiba/PR
Nunca se usa porém em início de parágrafo? Todas as gramáticas condenam tal uso ou há alguma brecha para usá-lo?N. N. R., Brasília/DF
Temos aqui duas questões: o uso de porém no início da oração e do parágrafo. Não há jornal ou revista que não contenha pelo menos uma frase ou oração iniciada pela conjunção adversativa porém. Isso faz parte da nossa escrita, sempre fez. Dois exemplos: O lançamento dessa medicação é um avanço, porém a reportagem não comentou o seu preço. / Vence quem ganha mais e cede menos. Porém, ceder é preciso.
Assim, não vejo razão para uma afirmação deste tipo: Porém: Não inicia oração e, por isso, deve aparecer no interior dela. Pode-se até dizer que essa conjunção fica elegante, talvez requintada, quando aparece no meio da oração (Ceder, porém, é preciso), mas não que essa deva ser a regra.
E já que se trata mais de estilo do que de erro, deixo que Gladstone Chaves de Melo tome a palavra. O conhecido professor mineiro-carioca, doutor em língua portuguesa e autor de mais de 30 obras, em seu livro Iniciação à Filologia Portuguesa, faz as seguintes ponderações no capítulo Como se deve estudar a língua [1957:353]: Todo o ensino da língua deve consistir em apurar o sentimento da linguagem. Mostrar o que está certo, chamar a atenção para o que está bem [...] Aprimorar o gosto, despertar e fomentar o senso de distinção, exercitar a plasticidade da inteligência, para fazer compreender que para cada uso linguístico há uma linguagem especial, de tal modo que não é possível estabelecer esquemas rígidos, grosseiramente aplicáveis a todos os casos [...].
Se alguém traz no bolso do colete a regra seca de que não se começa a frase por pronome oblíquo, como poderá apreciar a beleza daqueles versos do Evangelho nas Selvas, de Fagundes Varela, quando Anchieta encontra uma índia cismarenta, lhe dirige a pergunta: O que fazias, filha?, e ouve como resposta: Me lembrava dessa criança? [...]
Se alguém levou a sério a lição veiculada por Cândido de Figueiredo de que não é bom português a colocação de porém no início de frase
n não obstante as centenas de exemplos em contrário, desde os mais antigos até os mais modernos textos
n se alguém levou a sério a cerebrina teoria, não poderá saborear devidamente a beleza desta construção de A cruz mutilada, de Herculano: Porém, quando mais te amo...
Quanto à segunda questão, de fato não convém iniciar parágrafo com porém, mas e senão, que são as adversativas por excelência. Se essas três conjunções têm valor adversativo, isto é, exprimem a incompatibilidade das idéias envolvidas, elas devem estar ligadas de imediato ao enunciado anterior, dando pois sequência à afirmação principal ou tópico frasal do parágrafo, embora com idéia de oposição, contrariedade.
As outras assim chamadas conjunções adversativas [portanto, entretanto, contudo, todavia, não obstante] são na verdade advérbios que estabelecem relações inter-oracionais ou intertextuais (Bechara, Moderna Gramática Portuguesa), podendo por isso dar início a um novo parágrafo, ao contrário de mas e porém.


